sexta-feira, 30 de julho de 2010

CORA CORALINA, Aninha, Minerva, Poema

"Agosto,mais um aniversário do nascimento de Cora".

Quem é essa missionária que percorreu esses brasis?...
Que divindade é essa que perpassou os séculos?...
Quem é essa minerva que todos pararam para ouvir?...
Quem é a poetisa capaz de despertar emoções tão grandes em tantas gerações?...
Quem é essa bem amada de todas as camadas sociais?...
É Cora-Coralina, estela mor da poesia goiana.
A expressão mais bela e perfeita da arte do tempo. Sim, nela encontramos o resultado de pacientes e divinas pinceladas dadas uma hoje, outra amanhã, outra um mês, um ano, uma década depois. Arte que o tempo gerou em longuíssima gestação e não poupou meios, matéria, ambientes, nem emoções para a obtenção do sonhado fruto.
Assim, o tempo mesmo quis ser tintas, pincel e cinzel. Para forja, para estufa, para torno usou épocas, pessoas, labores, ambientes e a expôs às mais complexas e variadas emoções.
Ante a possibilidade de que as causas externas projetadas no amálgama incipiente que era ela tivessem efeitos imprevisíveis, o tempo pediu a Deus que a prouvesse de uma alma tal que, mesmo encarnada, transcendesse sempre aos sentimentos humanos. E essa transcendência fazia os sofreres mais sofridos, as dores mais doídas, a solidão mais solitária; intensificava as angústias, engrossava as lágrimas, tornava mais incontidos os soluços. Mas, a mesma transcendência a fazia ir lentamente captando ensinamentos nos fatos, nos erros, nas opressões, nos desprezos. A mesma transcendência a fazia entender, compreender, e, ao invés de acumular mágoas, ter desabrochado, no lugar de cada uma, um embrião de sensibilidade.
Não sei precisar se o tempo, na laboriosa faina de a compor, andou tendo dúvidas, ou se trabalhou sempre seguindo o mesmo plano.
O mais provável é que ela tenha influenciado o processo, condicionando o seu criador, o qual, diante de cada esboço concluído, iniciava o seguinte dentro da inspiração inicial, mas sofrendo naturais influências do que tinha diante de si. –“Não é o poeta que faz a poesia – E, sim, a poesia que condiciona o poeta”.
E pela vida afora o tempo a foi fazendo.
Deu-lhe têmpera no trabalho árduo, nas contradições, nas incompreensões, nos sofrimentos vários.
Burilou-a na escola primária da mestra inesquecível, no gosto pela leitura, nas convivências, nas tantas vivências.
Preparou-a. Aguçou-lhe a sensibilidade. Aprimorou-lhe as faculdades intelectuais...
Na atmosfera da Capital Velha, berço da cultura de Goiás, deixou-a exposta longos e importantes anos para que reunisse em si, os elementos que lhe facultassem extrair de outras vivências, das andanças, das viagens, das novas moradas; ensinamentos, beleza, poesia e também a capacitassem, a, em qualquer lugar ou circunstância, ser incansável e produtiva.
Como seu criador inspirava-se na Aninha de hoje para criar a Cora de amanhã, ela nunca atingiu o estágio final. Todo o dia o tempo a fazia uma nova Cora Coralina.
E, do burilar contínuo, dos retoques do pincel, do constante recriar é que tivemos a menina inzoneira, chorona, sabida demais; a moça bonita, metamorfose da menina feia; a doceira; a mulher decidida, trabalhadeira, criativa e finalmente, para que vislumbrássemos um pouco de seu incalculável conteúdo, para que a compreendêssemos mesmo sem sermos capazes de segui-la em seu constante aperfeiçoamento; a revelou na poesia.
E a poetisa surgiu com toda a força de um saber acumulado desde o século passado, com o prodígio de uma memória capaz de lembrar detalhes mínimos dos mais antigos fatos, de objetos já consumidos, de pessoas já há longos anos idas...
E a poetisa veio com um vocabulário tão belo, tão rico, tão elegante...
E a poetisa nos encanta com uma tão aguda sensibilidade frente à complexidade do contexto social, diante da simplicidade das pessoas simples, da natureza, dos objetos; encanta-nos enfim, pela bela, perfeita e sutilíssima visão que nos deu da vida.
Cora Coralina, amada das gentes, dos intelectuais, de todos quantos já a ouviram ou leram seu poemas.
Deusa que extravasou a sua sensibilidade, encantando os outros.
Musa que na beleza de sua figura de anciã seguia inspirando tantas expressões de afeto e admiração.
Que o tempo, seu criador, continue apaixonado pela obra que criou e siga a recriá-la sempre, todos os dias, para que outras gerações tenham também o privilégio de conhecê-la, pelos testemunhos, por sua obra de extrema beleza e sensibilidade, pelo seu saber e pelo exemplo de vida que deixou.
22.10.l983 -- Rilmar

sábado, 10 de julho de 2010

Lar. Último reduto

O último reduto, derradeiro bastião, trincheira pela qual se bate até que se exauram as últimas forças no intuito de preservá-lo, se não para si, para os que compõem essa molécula vital da sociedade, chamada família

Em seu lar cada indivíduo se abriga, se preserva.
No lar que é um espaço físico, social, psíquico; resguardam-se a família, os entes mais queridos, mais caros, mais importantes que o universo todo.
Preservem-no.
Não permitam que o invadam nem de forma abrupta e cruel, nem de forma lenta e dissimulada ou não, nem a nenhum pretexto.
O lar é um reduto da moral, dos usos, dos costumes, da religiosidade; de todas as experiências de vida que experimentamos, filtramos e queremos passar para nossos descendentes.
Quando de sua constituição, já houve uma interação entre os cônjuges, que se escolheram porque se aprovaram e querem, em comum, passar aos descendentes o bom e o sábio que têm dentro de si.
Nosso lar nos protege, mormente nos primeiros anos, de todas e quaisquer agressões que ameacem a integridade física, até mesmo um mínimo arranhão ou um toque ríspido. Protege-nos das doenças, das situações de risco a que a inocência ou a inexperiência nos expõem. Preserva-nos da maldade, da violência, da influência má ou equivocada. Guarda-nos, educa, ensina, mostra, prepara.
O lar não é uma coisa, um objeto que se possa dividir sem prejuízo da essência. Não tem botões de delere ou ajustes exatos. Nós dirigimos, formamos e até fazemos correções no todo do lar; mas há, como que um código diluído no todo que na medida em que vai sendo montado, resiste a correções, influencia o codificador, rebela-se, equivoca-se com informações contraditórias que não sabe filtrar.
Precisamos de um tempo de reservada convivência para conformar a moral, a ética, a filosofia de vida, as crenças e os mais básicos conhecimentos para a sobrevivência e capacidade de escolhas.
Precisamos de tempo para concretizar, fortalecer, aprimorar a estrutura física e mental.
De um tempo para robustecer fortemente os laços de amor entre os membros da família.
O lar não é propriedade de ninguém especificamente; é da família e pertence a todos os seus membros: pais e filhos. Seus guardiões naturais são os pais. Grande é seu compromisso. Enorme sua responsabilidade. Torna-se, no entanto, prazerosa e suave com presença do amor.
“Caso um missionário caísse no meio de uma aldeia primitiva, ainda que o comessem, a aldeia não seria mais a mesma. Pior ainda se o preservassem”
Nosso lar se assemelha! Na verdade deve e é necessária uma interação constante com a sociedade mas, o filtro principal são os pais que terão mais condição de passar suas essências, seus conteúdos de vida a seus filhos quanto mais limpas e ávidas estiverem suas mentes.
O contato, a integração com o mundo será cada vez maior e a nossa herança, nosso arsenal, nossa conformação física e psíquica farão com que separemos joio de trigo, soframos influências mas, façamos escolhas e também influenciemos para que o universo social nos acolha e seja agradável pára o todo e para cada um de nós.
Por melhor que seja o mundo, é bom que os filhos amem voltar ao lar de quando em vez e reviver momentos de convívio com suas raízes. Esses laços são naturais e se estabelecem no tempo em que se viveu no lar, em família.
Rilmar --03.07.2010

L A R



O último reduto, derradeiro bastião, trincheira pela qual se bate até que se exauram as últimas forças no intuito de preservá-lo, se não para si, para os que compõem essa molécula vital da sociedade, chamada família

Em seu lar cada indivíduo se abriga, se preserva.

No lar que é um espaço físico, social, psíquico; resguardam-se a família, os entes mais queridos, mais caros, mais importantes que o universo todo.

Preservem-no.

Não permitam que o invadam nem de forma abrupta e cruel, nem de forma lenta e dissimulada ou não, nem a nenhum pretexto.

O lar é um reduto da moral, dos usos, dos costumes, da religiosidade; de todas as experiências de vida que experimentamos, filtramos e queremos passar para nossos descendentes.

Quando de sua constituição, já houve uma interação entre os cônjuges, que se escolheram porque se aprovaram e querem, em comum, passar aos descendentes o bom e o sábio que têm dentro de si.

Nosso lar nos protege, mormente nos primeiros anos, de todas e quaisquer agressões que ameacem a integridade física, até mesmo um mínimo arranhão ou um toque ríspido. Protege-nos das doenças, das situações de risco a que a inocência ou a inexperiência nos expõem. Preserva-nos da maldade, da violência, da influência má ou equivocada. Guarda-nos, educa, ensina, mostra, prepara.

O lar não é uma coisa, um objeto que se possa dividir sem prejuízo da essência. Não tem botões de delere ou ajustes exatos. Nós dirigimos, formamos e até fazemos correções no todo do lar; mas há, como que um código diluído no todo que na medida em que vai sendo montado, resiste a correções, influencia o codificador, rebela-se, equivoca-se com informações contraditórias que não sabe filtrar.

Precisamos de um tempo de reservada convivência para conformar a moral, a ética, a filosofia de vida, as crenças e os mais básicos conhecimentos para a sobrevivência e capacidade de escolhas.

Precisamos de tempo para concretizar, fortalecer, aprimorar a estrutura física e mental.

De um tempo para robustecer fortemente os laços de amor entre os membros da família.

O lar não é propriedade de ninguém especificamente; é da família e pertence a todos os seus membros: pais e filhos. Seus guardiões naturais são os pais. Grande é seu compromisso. Enorme sua responsabilidade. Torna-se, no entanto, prazerosa e suave com presença do amor.

“Caso um missionário caísse no meio de uma aldeia primitiva, ainda que o comessem, a aldeia não seria mais a mesma. Pior ainda se o preservassem”

Nosso lar se assemelha! Na verdade deve e é necessária uma interação constante com a sociedade mas, o filtro principal são os pais que terão mais condição de passar suas essências, seus conteúdos de vida a seus filhos quanto mais limpas e ávidas estiverem suas mentes.

O contato, a integração com o mundo será cada vez maior e a nossa herança, nosso arsenal, nossa conformação física e psíquica farão com que separemos joio de trigo, soframos influências mas, façamos escolhas e também influenciemos para que o universo social nos acolha e seja agradável pára o todo e para cada um de nós.

Por melhor que seja o mundo, é bom que os filhos amem voltar ao lar de quando em vez e reviver momentos de convívio com suas raízes. Esses laços são naturais e se estabelecem no tempo em que se viveu no lar, em família.

Rilmar --03.07.2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

TERRA SUOR E MILAGRE

(Histórias Possíveis)





Terra, Suor e Milagre



Foi tão casual o achado meu naquele dia, quanto foi valioso e inesperado.

Um grande e cobiçado diamante!

E era meu!

Então o vendi para um homem que se dizia sócio de um banco.

Apurado o dinheiro dei-o a meu pai que, na verdade, foi quem o recebeu do homem e era, a meu ver, a pessoa mais sábia e honrada do mundo.

Meu pai, na sua imensa sabedoria, tratou de aplicar a fortuna de modo a dar renda e ocupação a toda família.

Comprou um trator novo e robusto, ágil e durável além de econômico.

Comprou terras planas e férteis a perder de vista.

Pensou, pensou e concluiu: - Vamos plantar mandioca. O risco é pequeno, o preço está ótimo, o custeio é baixo e dá pouco trabalho.

É notório o destemor dos Gomensauros (ancestrais pré-históricos dos Gomes atuais); por isso mesmo ficou decidido que plantaríamos um mandiocal tão grande que causasse espanto a todos os demais plantadores dali e de lugares distantes.

Tínhamos a terra, as ramas de mandioca, um ufanismo destemperado e sem tamanho e, sobretudo, tínhamos ainda uma boa quantia em dinheiro.

Cem alqueires de terra plana e fértil; uma infinidade de toletes de ramas de mandiocas; as mais variadas: mandioca pão, mandioca amarela, mandioca cacau, caipira de Minas, da Bahia, do Pará, mandioca brava e outras mais.

Depois de tudo arado, revolvido, corrigido, adubado; tocamos a plantar, plantar até que não houvesse mais três palmos quadrados de terra sem dois toquinhos de mandioca plantados.

Só a planura da terra com as eiras de covas cobertas já tinha muita beleza; mas quando choveu copiosamente e depois de alguns dias a brota ocorreu, foi que a vista se tornou maravilhosa mesmo.

A brota veio com força, vida, esplendor e cores que iam do verde de vários tons ao marrom avermelhado; e tudo virou um grande tapete que ia e ia se estendendo em direção ao horizonte até perder de vista. O vento ondulava e dava ainda mais vida àquele painel de proporções infinitas.

E tome trabalho, e luta, perseverança, obstinação incansável, capinas, combates às pragas; orações silenciosas pedindo chuva, sol e saúde.

Finalmente a lavoura estava no ponto, podíamos arrancar (colher), vender e apurar novamente dinheiro com o merecido lucro.

Aí eu resolvi abrir a boca e opinar...!

-Não gente!... Que bobagem é essa? Vamos industrializar o produto e lucrar muito mais!

Como?... Disse meu pai, o dinheiro acabou!

-Ora, a gente vende o trator e compra o maquinário que são os ralos, as mesas, as peneiras, os tanques, as ensecadeiras, etc; compra sacos para embalar, lonas para a secagem e grampos para fechar os sacos.

Expus minha idéia de tal maneira e pus tudo tão fácil que acabei por convencer meu pai e toda a família de que a idéia era boa e facilmente exeqüível.

E lá fomos nós produzir polvilho...

O tempo ajudou e fez muito sol com pouco vento. Trabalhamos como loucos. Ninguém de casa escapou. Moças, rapazes, velhos, meninos, universitários de férias, gatos e cachorros.

Arranca mandioca, lava na bica, carrega pro galpão, descasca, rala, molha, côa, deixa assentar o polvilho, esparrama para secar. Então o polvilho com a brancura da neve cobriu um campo quase tão extenso como era o mandiocal. Depois ensacamos, fechamos os sacos de uma quarta, empilhamos tudo em um depósito e fomos atrás de compradores.

- O preço tinha caído!, Ninguém queria comprar!...

- Ai meu Deus!... E agora?...

Doamos, distribuímos, consumimos e vender mesmo que era bom, quase nada.

A ruína já era quase certa. Foi então que um tio meu chegou com a notícia de que a farinha de mandioca era o produto do momento e que se vendêssemos a qualquer preço uns restos de nosso polvilho poderíamos construir fornos e torrar o rejeito de mandioca, que estava guardado, obtido na produção de polvilho e o transformarmos em farinha de mandioca de boa qualidade.

Quem está perdido não caça caminho! Não é mesmo?

Pois é, daí, vendemos as toneladas restantes do nosso polvilho e aplicamos tudo em peneiras, fornos, lenha e carvão e desandamos a fabricar farinha de mandioca.

Implantamos uma incontável quantidade de fornos em forma de iglus que ocuparam os vastos campos que à época do polvilho pareciam extensas planícies cobertas de neve.

A nuvem de fumaça, de complexa química, emanando dos fornos rumava direto para a camada de ozônio e quase duplicou o buraco além de reforçar o efeito estufa, tal era a quantidade de fumegantes fornos.

Os olhos se enchiam de lágrimas pelo ardido da fumaça e pela emoção de ver uma indústria produzindo.

Estaríamos salvos?

Ainda não.

Uma noite, depois que havíamos fabricado e estocado toda a farinha, uma grande chuva de trovões, ventos e granizos aconteceu com toda a fúria e arrancou telhas, e revirou tapumes, e invadiu galpões...

Molhou toda a farinha.

Bateu um enorme desânimo.

Desastre total?

Ainda não.

Não é que no dia seguinte, quando estávamos no maior desespero, no mais completo desânimo; o telefone tocou e atendendo eu ouvi:

- Como? - Se temos farinha? – Temos, mas está molhada, muito molhada. - Hein, vocês só se interessam por ela se estiver molhada? – Não acredito. – Mas para que serve farinha molhada?

- Para fazer pirão!

- Sim, dizia a voz, basta acrescentar cubinhos de caldo de carne e depois separar em porções, levar ao fogo e, a seguir congelar. Pirão de mistura repousada, quanto mais antiga melhor; a Europa compra tudo e a Bahia também... é pegar ou largar... Vocês vendem?

- É claro que vendemos.

Pagamos as dívidas e com a sobra vamos comprar um novo trator e aproveitar as ramas do antigo mandiocal para começar tudo de novo.

Rilmar José Gomes

28/07/2007

Terra, suor e milagre

(Histórias Possíveis)


Foi tão casual o achado meu naquele dia, quanto foi valioso e inesperado.

Um grande e cobiçado diamante! E era meu! Então o vendi para um homem que se dizia sócio de um banco.

Apurado o dinheiro dei-o a meu pai que, na verdade, foi quem o recebeu do homem e era, a meu ver, a pessoa mais sábia e honrada do mundo.
Meu pai, na sua imensa sabedoria, tratou de aplicar a fortuna de modo a dar renda e ocupação a toda família.
Comprou um trator novo e robusto, ágil e durável além de econômico.
Comprou terras planas e férteis a perder de vista.
Pensou, pensou e concluiu: - Vamos plantar mandioca. O risco é pequeno, o preço está ótimo, o custeio é baixo e dá pouco trabalho.
É notório o destemor dos Gomensauros (ancestrais pré-históricos dos Gomes atuais); por isso mesmo ficou decidido que plantaríamos um mandiocal tão grande que causasse espanto a todos os demais plantadores dali e de lugares distantes.
Tínhamos a terra, as ramas de mandioca, um ufanismo destemperado e sem tamanho e, sobretudo, tínhamos ainda uma boa quantia em dinheiro.
Cem alqueires de terra plana e fértil; uma infinidade de toletes de ramas de mandiocas; as mais variadas: mandioca pão, mandioca amarela, mandioca cacau, caipira de Minas, da Bahia, do Pará, mandioca brava e outras mais.
Depois de tudo arado, revolvido, corrigido, adubado; tocamos a plantar, plantar até que não houvesse mais três palmos quadrados de terra sem dois toquinhos de mandioca plantados.
Só a planura da terra com as eiras de covas cobertas já tinha muita beleza; mas quando choveu copiosamente e depois de alguns dias a brota ocorreu, foi que a vista se tornou maravilhosa mesmo.
A brota veio com força, vida, esplendor e cores que iam do verde de vários tons ao marrom avermelhado; e tudo virou um grande tapete que ia e ia se estendendo em direção ao horizonte até perder de vista. O vento ondulava e dava ainda mais vida àquele painel de proporções infinitas.
E tome trabalho, e luta, perseverança, obstinação incansável, capinas, combates às pragas; orações silenciosas pedindo chuva, sol e saúde.
Finalmente a lavoura estava no ponto, podíamos arrancar (colher), vender e apurar novamente dinheiro com o merecido lucro.
Aí eu resolvi abrir a boca e opinar...!
-Não gente!... Que bobagem é essa? Vamos industrializar o produto e lucrar muito mais!
Como?... Disse meu pai, o dinheiro acabou!
-Ora, a gente vende o trator e compra o maquinário que são os ralos, as mesas, as peneiras, os tanques, as ensecadeiras, etc; compra sacos para embalar, lonas para a secagem e grampos para fechar os sacos.
Expus minha idéia de tal maneira e pus tudo tão fácil que acabei por convencer meu pai e toda a família de que a idéia era boa e facilmente exeqüível.
E lá fomos nós produzir polvilho...
O tempo ajudou e fez muito sol com pouco vento. Trabalhamos como loucos. Ninguém de casa escapou. Moças, rapazes, velhos, meninos, universitários de férias, gatos e cachorros.
Arranca mandioca, lava na bica, carrega pro galpão, descasca, rala, molha, côa, deixa assentar o polvilho, esparrama para secar. Então o polvilho com a brancura da neve cobriu um campo quase tão extenso como era o mandiocal. Depois ensacamos, fechamos os sacos de uma quarta, empilhamos tudo em um depósito e fomos atrás de compradores.
- O preço tinha caído!, Ninguém queria comprar!...
- Ai meu Deus!... E agora?...
Doamos, distribuímos, consumimos e vender mesmo que era bom, quase nada.
A ruína já era quase certa. Foi então que um tio meu chegou com a notícia de que a farinha de mandioca era o produto do momento e que se vendêssemos a qualquer preço uns restos de nosso polvilho poderíamos construir fornos e torrar o rejeito de mandioca, que estava guardado, obtido na produção de polvilho e o transformarmos em farinha de mandioca de boa qualidade.
Quem está perdido não caça caminho! Não é mesmo?
Pois é, daí, vendemos as toneladas restantes do nosso polvilho e aplicamos tudo em peneiras, fornos, lenha e carvão e desandamos a fabricar farinha de mandioca.
Implantamos uma incontável quantidade de fornos em forma de iglus que ocuparam os vastos campos que à época do polvilho pareciam extensas planícies cobertas de neve.
A nuvem de fumaça, de complexa química, emanando dos fornos rumava direto para a camada de ozônio e quase duplicou o buraco além de reforçar o efeito estufa, tal era a quantidade de fumegantes fornos.
Os olhos se enchiam de lágrimas pelo ardido da fumaça e pela emoção de ver uma indústria produzindo.
Estaríamos salvos?
Ainda não.
Uma noite, depois que havíamos fabricado e estocado toda a farinha, uma grande chuva de trovões, ventos e granizos aconteceu com toda a fúria e arrancou telhas, e revirou tapumes, e invadiu galpões...
Molhou toda a farinha.
Bateu um enorme desânimo.
Desastre total?
Ainda não.
Não é que no dia seguinte, quando estávamos no maior desespero, no mais completo desânimo; o telefone tocou e atendendo eu ouvi:
- Como? - Se temos farinha? – Temos, mas está molhada, muito molhada. - Hein, vocês só se interessam por ela se estiver molhada? – Não acredito. – Mas para que serve farinha molhada?
- Para fazer pirão!
- Sim, dizia a voz, basta acrescentar cubinhos de caldo de carne e depois separar em porções, levar ao fogo e, a seguir congelar. Pirão de mistura repousada, quanto mais antiga melhor; a Europa compra tudo e a Bahia também... é pegar ou largar... Vocês vendem?
- É claro que vendemos.
Pagamos as dívidas e com a sobra vamos comprar um novo trator e aproveitar as ramas do antigo mandiocal para começar tudo de novo.
Rilmar José Gomes
28/07/2007

sábado, 1 de maio de 2010

À Minha Mãe

Rilmar

Nossa Senhora na beira do rio.
Lavava os paninhos de seu bento fio...

Eu bem quisera escrever em trovas, mas não as consigo criar dignas destas memórias...

E falo a você, Mãe, com a firme lembrança da sua imagem naquelas tardes ensolaradas quando você, que durante toda a semana lecionara o dia todo e parte da noite para alunos de ambos os sexos, de todas idades, das mais variadas classes sociais e de comportamentos os mais diversos e imprevisíveis; mas que a sua paciência imensa, o seu amor ilimitado, a sua alegria que se espargia e contagiava a todos; envolviam, compreendiam, harmonizavam, disciplinavam e conseguiam conduzi-los paulatinamente em direção à luz do saber.
 Naquelas tardes ensolaradas você, inesgotável e bela, ainda tinha missões para o fim de semana.
Como a vejo nítida destacando-se nestas imagens que me vêm à mente.
Seu português tão correto, sua letra de lindíssimo talhe, suas frases tão plenas de saber, de compreensão, de poesia; elegantes e delicadas. E as inesquecíveis lições de humildade que nos dava, indo, ao final da semana, alegremente até, levando-nos para o córrego como se fôssemos passear, quando, na verdade, você ia era lavar a imensa trouxa de roupas que as nove pessoas da casa usaram durante a semana.
E a lembrança me traz você como aquela Nossa Senhora da cantiga de ninar:
Nossa Senhora na beira do rio.
Lavava os paninhos do seu bento fio.
Ela lavava, José estendia.
O menino chorava com o frio que fazia...
Era você lavando, contando casos repletos de interesses para nós que deitados na água morna do pequeno regato mantínhamos os olhos e os ouvidos ligados nos seus gestos e em cada palavra sua no desenrolar da narrativa
Nítida e iluminada como uma santa, saudosa e amada como só as mães podem ser, eis como minhas lembranças a retratam.
Fim de dia. Recolhidas as roupas e refeita a trouxa, lá ia você com a imensa mala de roupas e a fila de filhos a acompanhá-la de volta ao lar.
Mais que a professora, maior que a diretora, grande como uma luminosa divindade; tranquila, afagando um ou outro, sorrindo no seu grandioso papel de Mãe!...
Maria como a mãe do menino Deus, bendita mulher que veio ao mundo para dar amor e espalhar luz e saber. Hei de sempre lembrá-la com seu amável sorriso a semear virtudes, tolerância e amor.
Muito obrigado minha mãe, minha amiga, meu fanal. Muito obrigado por ter deixado em mim essas lembranças que me envaidecem demais e me ensinam muito o respeito de humildade e altruísmo.
10-05-1979
Rilmar José Gomes

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Terra!... A Mãe das Mães

Passarão os homens, a ambição, a inconsequência... A Terra, não.

Planeta Terra

No tempo dos voos das cosmonaves, a mente livre percorre as amplidões dos espaços siderais e perpassa satélites, planetas, poeiras cósmicas, pedregulhos meteoríticos, estrelas das mais variadas magnitudes e salta de sistema em sistema ganhando as mais longínquas e impensadas paragens das amplidões infinitas.

O homem pensa na posse de algo tão imenso que nem sequer imagina quão grande seja.

As mentes fervilham e trabalham.

A ciência se desenvolve e avança.

No tempo da comunicação impossível, das mensagens estelares, dos contatos com outras dimensões de existência apenas suspeitada; do envio de imagens através do vácuo desde os mais distantes planetas à Terra, e de tantas ondas enviadas aos espaços infinitos levando imagens e sons que, sabe Deus, talvez sejam captadas em lugares nunca por nós imaginados.




Na era do vasculhar das potencialidades das mentes até nos seus aspectos mais extra-sensoriais.

Você continua sendo a mãe extremosa, mãe de todas as mães e dos pais, e dos avós e de todos os ancestrais, enfim.

Você que protege sem desproteger, sem enfraquecer o forte ou debilitar o fraco. Que incansavelmente vem, há milênios, nos expondo à luz e ao calor do Sol ao fazer o dia e, ao saber-nos cansados, envolve-nos em sua imensa sombra para que repousemos, e faz a noite.



Você que por milhões de anos se preparou para nos conceber, mercê da vontade de Deus; e por outros tantos nos gestou com infinita paciência, aguardando um lentíssimo evoluir de moléculas, de vírus de bactérias e de uma cadeia imensa de complexidades sucessivas até chegar ao que somos.

Amada mãe que cede cada átomo, cada cristal, cada molécula para a estruturação de todos os seres. E, os protege para que sobrevivam, e os expõe à agruras e labores para que se robusteçam e ganhem têmpera; e lhes proporciona belezas, perfumes e sensibilidade para que, sendo fortes e rijos também saibam sentir os abstratos sublimes como a saudade, o amor, a fraternidade, a poesia; e que, quando a vida cessa e a alma ganha o infinito, reabsorve cada fragmento, cada grão e seleciona elemento por elemento recondicionando-os para que propiciem renascimentos e , como um todo universal, se eternizem.

Mapa mundi

No tempo das maravilhosas realizações dos homens...
Você, sábia como sei não há, por certo, de ficar impassível a tudo o que essas realizações maravilhosas vêm destruindo em você.
Paciente e sábia, eis a sua maior qualidade. Imagino que bem poderia inclinar a sua equatorial cintura de quarenta mil quilômetros e inverter a posição dos pólos com a mesma. Isso provocaria tanta cessação de vida, que a superpopulação, o alucinado progresso, o desenfreado e irracional consumo, tudo regrediria séculos ou milênios. Uma nova humanidade talvez então se conformasse mais evoluída, mais perfeita e mais digna de você.

Mas você é mãe!... E, as mães criam, sofrem se doam, se consomem e, muitas vezes sucumbem ante a ingratidão ou a insensibilidade dos filhos, porém nunca sequer lhes ocorre a palavra vingança.



E você fica impassível, ou por ser mãe, ou por entender que a humanidade apenas segue uma trajetória previamente traçada como parecem ser todas as trajetórias de tudo o que existe no Universo.

Não é mérito, nem culpa minha, se sendo rijo e forte sou sensível a ponto de dizer que mais que pela gravidade me prendo em você pelo amor e pela gratidão.


Rilmar - 1979

22 de abril - Dia da Terra