quinta-feira, 25 de março de 2021

O Nosso Despertador

 

O Despertador
Tic-Tac... tic-tac... Tic...Tac...
Ouvi como sendo um SOS.
Jogaram nosso velho despertador fora, num monturo no fundo do quintal, mas o velho relógio era tão teimoso e tão valente, que continuou, ou voltou, a fazer tique tac de dentro do lixo.
Cheguei mais perto a ver se não era só uma ilusão minha.
O som ficou mais nítido, mais claro, melhor audível.
Tic tac... tic tac.
Bateu uma saudade, dó de deixar o velho relógio ali no lixo, emperrando cada vez mais e se desfazendo aos poucos.
Fui sentindo um grande aperto no coração.
Pode até que fosse um pouco de usura de minha parte.
Não cheguei a analisar isso.
Com mais dois ou três tic tacs, não me contive e peguei duas ferramentas de jardinagem, pequenas e pouco contundentes e comecei a afastar pouco a pouco o lixo. Era um lixo fofo, recente, composto mais por folhas mortas e capins arrastados com rastelo recentemente. Na faina exumatória, formigas assustadas surgiam de quando em vez, um ou outro cupim de tesourinha aberta e o resto era um pouco de terra e as folhas e capins
Limpa que limpa, afasta que afasta, fui indo lixo a dentro, até que senti que tocava a estrutura metálica do nosso despertador. Dali para frente, trabalhei com as mãos, com os dedos e, com muito jeito, acabei por libertá-lo totalmente do monturo.
Depois limpei mais dando umas pancadinhas leves com a mão, esfregando na roupa, passando um pano, assoprando daqui e dali, passando outro pano mais limpo e seco, arrisquei outras batidelas com as mãos, cheguei a usar um pouco de álcool, ou melhor um caneco de pinga, na remoção da sujeira e finalmente considerei satisfatória a limpeza.
Não era o bastante. O relógio teria que trabalhar e produzir.
Trabalho de relógio é fazer tic e tac e trrilimmm... trrilimmm. E ficar vigiando o tempo.
Produção de relógio é nos dar a hora certa e nos acordar de manhã cedo.
Como a noite já caísse, embrulhei bem o meu relógio. Agora era meu. Sempre quis ter um relógio para entrar dentro e entender esse milagre da mecânica. Meu relógio para deixar no meu quarto fazendo barulhinho de relógio e servindo de companhia.
No outro dia bem cedo, era um fim de semana, peguei o relógio, coloquei-o sobre um caixote, à guisa de mesa, e fui tratar de melhorá-lo. Tirei a tampa de trás e vi que por dentro estava preservado das sujeiras do monturo. Tinha alguma poeira, mas com infinita paciência, alguns cotonetes que peguei nos guardados de minha mãe, minha caneca de pinga onde, vez por outra ia molhando os cotonetes; fui limpando, limpando até me dar por satisfeito. Depois fui na máquina de costuras e tomei emprestado uma almotolia de óleo singer e andei pingando em vários pontos o bendito óleo desengripante.
É quase um milagre o que esse oleozinho faz.
Ficou muito bom. Se já conseguia trabalhar, um pouco claudicante, com a limpeza e umas torcidas na borboletinha de dar corda então, foi como se ressuscitasse. Voltou com tudo. Parecia novo no funcionamento da maquinária. Não me atrevi hora nenhuma a mexer nos mecanismos. Pareciam complicados demais.
Olhando pelo lado do mostrador, ainda era o nosso velho relógio com números em algarismo romano, fundo amarelado, ponteiros um pouco desbotados, mas tudo funcionava.
Lá estavam o ponteirinho da gente estabelecer a hora do despertar, com seus numerozinhos e dentro de um círculo. O ponteirão dos minutos correndo atrás do ponteiro das horas e passando por cima deste de hora em hora.
Parece que marcar segundos não era tão importante.
Bem arrumadinho, colocadas as borboletas por trás, depois de tê-lo acondicionado bem na sua caixa; olhei bem para ele e o achei digno de voltar para a sala e só ficar no meu quarto nas minhas noites de insônia ou quando eu tivesse que me levantar mais cedo por um motivo qualquer.
Eu era ainda tão pequeno e de tão pouca idade que ainda não perdia sono por causa de paixões ou amores não correspondidos. Minhas insônias tinham origem mais em medos advindos de histórias medonhas que às vezes nos contavam ou por algum malfeito que iriam contar para meu pai, ou ainda porque tivesse morrido alguém da vizinhança.
O fato é que pretendi devolvê-lo ao seu lugar de honra, na sala, bem no meio da mesa de visitas. Ou, num cantinho perto de Nossa Senhora de Lourdes, a santa que nos protegia dia e noite e guardava minha mãe nas horas dos partos. Ou seja, quase anualmente.
Coloquei-o ao lado da santa.
Ali posto, ficou todo garboso fazendo tique e taque, mostrando as horas e de peito estufado. Ele todo orgulhoso de lá e eu de cá esperando os elogios, com os olhos brilhando de vaidade.
Antes de qualquer elogio ou reconhecimento...
A novidade!...
Meu pai entrou porta adentro trazendo uma grande caixa e nela um fulgurante relógio de parede, todo brilhoso, incrustado em madeira envernizada, com mostrador de um vidro tão límpido que parecia um cristal. Os números eram tão grandes e nítidos que podiam ser vistos de qualquer lugar da casa sem precisar se aproximar. O barulho era mais um cloc-cloc que um tic... tac... e era tão alto que ressoava pela casa toda.
Escolheu-se o melhor lugar da parede e o colocaram.
Ninguém nem notou meu redivivo despertador.
Até eu me entusiasmei com o novo relógio de parede, bonito, grande, cheio de energia e fulgor.
E como se não bastasse, o relojão de parede ainda tinha um pêndulo que parecia ser feito de ouro e luz, de tão reluzente que era. Além de bonito e brilhante ainda se dava ao luxo de balançar de um lado para o outro ao ritmo do cloc... -cloc... dia e noite.
Pela manhã, raios de sol conseguiam penetrar por vãozinhos das telhas e se refletirem no brilho do pêndulo que em seu movimento os projetava na parede defronte e nos hipnotizava pois luzes surgiam, se misturavam, sumiam, ressurgiam e se movimentavam como num cinema. No início ficávamos extasiados apreciando os efeitos especiais proporcionados pela novidade e o sol. A gente até se sentava olhando embevecidos e esquecidos das obrigações do dia a dia. O fenômeno durava até ali pelas nove horas quando então a posição do sol o interrompia para só voltar no dia seguinte pelas sete horas. Muitas vezes a voz de minha mãe tinha que nos trazer de volta à realidade para a continuidade da vida.
Com o passar dos dias fomos nos acostumando e o deixando lentamente de lado.
Era o cloc... -cloc...,; a beleza do relógio, o pêndulo maravilhoso e as luzes projetadas na parede pela manhã.
Meu despertador quase esquecido, ficava no seu canto com seu tic... tac.
O grande relógio de parede, além de barulhento não era despertador. Então, o antigo não estava totalmente dispensado não.
Alguém achou que era inadequado manter o despertador ao lado da santa. Falaram em heresia, desrespeito, feiura para justificar a conveniência de tirá-lo de lá.
Levei-o para meu quarto, mas logo lembraram que ele não era tão meu assim. Tinha que ficar onde todo mundo pudesse vê-lo e usar o despertador se quisesse.
Finquei um par de pregos na parede ao lado do garboso marcador de tempo e seu pêndulo e, uma noite quando todos estavam dormindo, dei um jeito de colocar o despertador ali, ao lado, sustentado pelos pregos premeditadamente fincados.
Bastou que o dia amanhecesse para que eu tivesse que tirá-lo de lá às pressas devido ao clamor popular das pessoas da casa e aos veementes brados de meu pai querendo saber quem foi o autor da arte. Como todo mundo soubesse de meus laços com o despertador, não foi necessária minha confissão. Recebi a intimação de desfazer o malfeito e, como meu pai já estivesse de saída para o trabalho, a reprimenda ficou para depois e acabou sendo esquecida. Uma semana ou mais depois, apareceram lá em casa uns ciganos querendo comprar retalhos de metais e bugigangas. O item bugigangas parecia incluir o nosso despertador que foi trazido e apresentado aos parentes de Melquíades. Um cigano imenso se adiantou e examinou longamente o relógio. Examinava e me olhava, eu com os olhos cheios de água e a testa franzida querendo chorar. O brutamontes não dava qualquer sinal de ter coração. Mas, quem vê cara não vê coração. Não hão de ver que o monstruoso cigano virou-se para meu pai e falou que não ia comprar e que aquela preciosidade estava ligada a alguém da família tão profundamente, que nunca deveria ser vendido. Minha mãe, sensível e bondosa, me entregou o relógio e disse que era para eu levar para meu quarto. Os ciganos acabaram encontrando alguma coisa que lhes interessava, deram um tacho de cobre na negociação, receberam algum dinheiro e foram embora. Minha mãe se apossou do cintilante tacho e foi guardá-ló na dispensa cheia dos mais doces planos para ele.
Aliviado e feliz corri para o meu quarto e coloquei antes o relógio perto da santa e expliquei na casa que tinha sido promessa.
Sendo promessa, todos acataram e desde então o relógio ficava com a santa durante o dia e comigo em meu quarto à noite. Quando alguém precisava de despertador, lá ia o meu relógio. O bonitão do cloc... cloc... fazia tudo para agradar e era o orgulho da casa, mas despertar e poder ficar com o dono, na beira da cama, lá isso não. Era grande e barulhento e não sabia despertar. Tive meu amigo tiquetaqueando perto de mim toda a minha infância e adolescência e só quando parti para o mundo nas lutas da vida, o deixei em casa com mil recomendações para o preservarem. Nunca voltei e hoje presto aqui essa homenagem ao meu inesquecível amigo tic.. tac... quase ainda podendo ouvi-lo na distância. 19/03/2021 - rilmar
Laura Mesquita, Alexandre Gomes e outras 14 pessoas
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sábado, 20 de fevereiro de 2021

O URUBU CALVO

 

O Urubu Calvo

 

Resgatei aquele filhote de urubu quando ele ainda era uma criança.  Pobre ave...! Simpática, cativante e totalmente coberta de plumas brancas.

Estava caído no quintal e iria morrer de frio na noite gelada e de muita chuva.

Fui dar uma última olhada no fundo do quintal, que não era tão grande e percebi aquele galináceo no escuro e dando pulos incertos em minha direção.

Digo galináceo devido à minha primeira impressão ao percebê-lo cambaleante na escuridão.

Aproximei-me, com uma velha lanterna, tentando iluminar o canto escuro onde o ser alado se encontrava.

A lanterninha emitia um fachozinho mambembe, fraco, avermelhado e ainda atrapalhado pelos pingos da chuva e uma nevoazinha que pairava no ar. A trave de ligar e desligar a lanterna, velha como a própria lanterna, desgastada e impregnada de restos de suores e oleosidades dos dedos que já a haviam manipulado um sem número de vezes; não obedecia direito e daí, a luz emitida era trêmula, amarelada e fraquinha.

Também as pilhas e os contatos não deveriam estar ajudando muita coisa.

Ainda assim acabei por localizar o coitadinho.

Um filhote de urubu, caído não sei de onde.

Apanhei um saco de aniagem, abri bem a entrada dele e envolvi o entanguido filhote e depois o levei para nosso porão onde o meti no meio de uns panos velhos, porém sequinhos e quentes.

 Não sabendo direito o que é que filhotes de urubus comem, inventei um escaldado com carne moída e um pouco de fubá de milho. Continha carne e estava morninho, mais para quente. O bicho aceitou e foi engolindo apressadamente as porções que eu lhe ofertava. Guloso e impetuoso. Comia e me ensinava como alimentá-lo. Em seguida se acomodou num canto, no meio das roupas velhas e ficou quietinho.

Afastei-me pensando que quando voltasse já não o encontraria mais ali.

No entanto, no dia seguinte, o filhote de urubu estava lá firme e forte. Não levou tempo nenhum até que ele nos adotasse como família e todos na casa também passassem a gostar do bichinho emplumado.

Andava pela casa toda.

Dava notícia de tudo que acontecia na cozinha.

Guloso, aprendeu a comer comida de gente e andava atrás das pessoas como se fosse um franguinho daqueles que chamamos de tute.

Comia, dormia e corria atrás da gente pela casa o tempo todo.

Depois, na medida em que foi crescendo, começou a trocar a plumagem branca por penas negras retintas no corpo todo, menos na cabeça e pescoço que iam escurecendo e assumindo uma cor preta também, mas de um preto fosco e com sobras de pele de forma que se formavam rugas e fazia o bicho ficar até engraçado de tão feio.

Feio, desengonçado, intolerante com estranhos, porém muito querido por todos da casa.

Acabou ficando amigo do cachorro e do gato.

 O gato mantinha a amizade um pouco à distância na medida em que o urubu ficava maior do que ele, tomava sua comida e dava-lhe umas bicadonas robustas quando queriam a mesma coisa e partiam para a disputa.

O cachorro era enorme e havia um respeito mútuo muito mais interessante para o urubu do que para ele. Como não havia outro animal para o cachorro brincar, já que cão e gato não se dão bem, iam além da simples tolerância e brincavam de correr, de esconder, de bicar brincando e de morder com cuidado. Às vezes se engalfinhavam e havia necessidade de ação humana para moderá-los.

Bastava um ralhar brando com o cão que o soltava e, logo voltavam às brincadeiras.

Houve um dia em que o cachorro estava dormindo e o urubu sentindo-se só, resolveu acordá-lo dando-lhe umas bicadas no focinho. Nesse dia quase perdemos nosso enteado. Cachorro dormindo, pode se assustar pensando estar sendo atacado e partir com tudo contra o possível inimigo. Ainda bem que a tremenda bocada que ele deu, pegou nosso urubu meio de lado e as penas que já eram bastante e rijas, o protegeram dando tempo à nossa ação de acudir.

Os dias iam passando e o bicho ia, dia a dia, apresentando novidades seja, na quantidade de penas, na envergadura devido às asas que iam crescendo, no bico que se destacava, na calvície que ia do pescoço até à junção do crânio com o bico.                                                                                               

Finalmente chegou o dia em que ele começou a dar uns pulinhos e correr pelo quintal, numa manhã ensolarada. Corria, pulava e dava umas batidas de asas como se fosse para se equilibrar melhor. Foi e veio de um lugar para outro uma porção de vezes até que, em dado momento saiu do chão ainda meio atabalhoado e foi pousar na cumeeira da casa onde ficou de asas abertas experimentando as correntes de ar.

Percebemos logo as intenções dele e tentamos fazer com que desistisse.

Chamamos, fizemos gestos, oferecemos guloseimas, trouxemos o cachorro amigo para ver se o convencíamos, mas ele continuou naquela postura de asas abertas, até que sentiu o momento e se deixou levar pelas correntes de ar ascendentes, dando umas batidas de asas como se remasse imerso no fluido. Fez alguns giros contornando a casa, o quintal e passando sobre nós que olhávamos fazendo gestos de volta, volta... e, finalmente de despedida.

Subiu, subiu e foi indo e indo fazendo círculos, ficando cada vez menor e se afastando cada vez mais, galgando espaço rumo ao azul do céu.

Então o demos por perdido para nós e livre para se assenhorar de seu destino como deveria ser.

O dia foi cheio e passou rápido. Caiu a tarde e não demorou muito para que o sol se escondesse e a noite chegasse. 

Vieram outros dias, outras noites.

 Nosso urubu não dava notícia.

Seria um daqueles tantos que que víamos dando voltinhas no alto do céu como sempre aconteceu?

Chegou um momento em que nem perdíamos mais o nosso tempo olhando o céu a procura daquele ingrato.

Deu-se então, que em um dia bem à tardinha, ouvimos um barulho de ruflar de asas e crocitar adolescente e cheio de us. 

Corri até o quintal tentando olhar por cima do telhado e vi que ele voltara. Não estava só.

Com ele estavam duas prováveis fêmeas urubus e não paravam de se bicarem; elas debicando carinhosas e ele, no maior desplante, bicando uma e a outra repetidamente.

Ficaram ali namorando e crocitando, andando sobre o telhado aluindo telhas, por um bom tempo. Depois, como a noite caísse, alçaram voo e foram pousar no alto de um imenso angico não muito distante e por lá ficaram, certamente, até que o sol, no dia seguinte lhes propiciasse correntes quentes ascendentes para tornarem a subir em direção ao céu.

Não sei se urubus costumam formar par constante, mas o nosso, cada vez que vinha, trazia consigo novas amigas. Sempre muito carinhosas, elegantes e com a beleza de serem saudáveis, brilhosas e altivas.

Ainda hoje, ele vez por outra volta e o reconhecemos pelos modos que conserva de sempre estar esperando que lhe ofereçamos algum petisco e esticar o bico num gesto com a cabeça e o desnudo pescoço enrugado próprio dos urubus. Folgado, simpático, malandro, mas nosso amigo para sempre.

                                      15/02/2021      ---- rilmar                                                                                          

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

PRONTO SOCORRO

 

                           -   III  -

 

                    --    PRONTO SOCORRO ----                                                           (Um médico, finalmente no céu)


Bem dormido, refeito em suas emoções e sentimentos, experimentava uma alegria tão boa, tão plena, tão calma como nunca experimentara antes e nem sequer imaginara pudesse haver tão envolvente estado de alma.

Foi ao café e percebia em si umas mudanças. Emanava afeição. Era também receptivamente aceito e querido por todos. Sentia isso nos olhos, nos sorrisos, nas expressões faciais.

Tinha tempo.

Sendo infinito, o tempo ali nem era considerado ou sentido. O ter tempo não causava nenhum enfado. Pelo contrário contribuía para aquele estado de alma que sentia. Cumprimentou todo mundo com alegria e eram muitos os que tomavam café em algumas mesas distribuídas pelo ambiente.

Em cada um que abraçava reconhecia um amigo de velhos tempos, um colega de turmas desde o primário, ginasial, científico, faculdade, residência, plantões. Também as pessoas que de maneiras mais simples, até despercebidas fizeram parte de sua curta existência aqui na Terra, muitas já estavam lá e o abraçavam alegres, simpáticas, espontâneas.

Os abraços transmitiam mil coisas boas. Eram aconchegos acolhedores. Eram afeto terno, fraterno, transmitindo um bem querer e uma fraternidade quase esquecida entre nós.

Os padecimentos sofridos no inferno serviram para aflorar-lhe a sensibilidade

Um novo sentir e receptividade, aceitação e afeto tão à flor da pele e que ele, ao mesmo tempo recebia e emanava.

 Durante a vida, fora imperfeito em dar os afetos que buscara.

Agora ali estava experimentando esse ambiente novo e surpreendente momento a momento.

Depois do café; novamente para o hospital; seu mundo, seu reino, seu ambiente.

Hoje o esperava um Plantão.

Plantão é um emaranhado de apertos, sucessos, desafios glórias, derrotas cansaço e muitos sustos.

DEUS – será um capítulo a parte

 

           ------- XXX ------

Vamos aos plantões que o doutor já está atrasado.

Também os plantonistas têm acesso próprio ao colossal Hospital. Entram, apanham vestimentas apropriadas para a atuação no plantão, vão ao vestiário, se trocam e saem de lá bem à vontade dentro do grosso blusão que tem grandes bolsos na frente e tamanhos mais ou menos padronizados, de forma tal que um dos três tamanhos existentes vista bem pessoas magras, gordas, altas ou baixas.

 Como há um grande orgulho em merecer vestir aquelas roupas, todo mundo se sente bem, bonito e sorridente dentro da indumentária.

Ora!... Direis; e tem pronto-socorro no céu?

Bem, a impressão que tenho é que se tratasse de um tipo de hospital regional.

Entre o inferno e o céu, podem talvez existir variadas instâncias distribuídas vertical e lateralmente.

Assim o universo transcendental deve ter muitas moradas e por elas passam, estagiam, habitam; uma infinidade de almas que vão lentamente se adaptando, quase diria se reeducando, mas o termo é muito cheio de conotações negativas.

 Enfim, é possível que nem todo mundo possa se ver, de repente, no Paraíso sem causar perturbações devido aos modos, costumes, egoísmos, paixões, eivados de defeitos levados daqui desse nosso mundo.

Tintim por tintim, com detalhes, eu não sei. Só escrevo o que me foi passado.

O fato é que os saguões amplos e confortáveis onde pacientes em geral esperavam estavam cheios.

Havia alas separando grupos de patologias, especialidades e os graus de urgências.

Não estava só, no atendimento.

Não o angustiava o número de pessoas que teriam que atender.

Os pacientes esperavam com naturalidade. Aceitavam a seleção por urgência e tinham algum tipo de atenção já ali onde esperavam. Eram avaliados, informados, assistidos com palavras, água, cafezinho, música, orientações, alívio de dores; quando possível.

Iniciados os atendimentos, no consultório e nos boxes de urgência chegava de tudo. A realização de médico para ele era essa diversidade de desafios para os quais se preparara a vida inteira.

Estava ali como generalista.  Poderia ser chamado a ajudar colegas, ser ajudado e até especificamente assumir uma ou outra cirurgia de urgência ou emergência. Porém uma equipe de retaguarda devia cuidar das ações que demandassem um longo tempo. A ele caberia dar os primeiros passos diagnósticos, estancar sangramentos, fazer todos os procedimentos iniciais de emergência, tratamentos clínicos urgentes, estabilizar e encaminhar os casos de especialidades ou resolutividade mais prolongada.

     Antes de ir para o consultório passou pelos boxes viu dois pacientes estabilizados e dormindo, no mais eram macas vazias, arrumadas esperando pacientes. Cumprimentou o pessoal, em sua maioria jovens moças, exercendo a função de Técnicas de Enfermagem. 

    Mal se sentou na cadeira do consultório e já foi entrando um jacaré de pronto socorro.

    Antigo; sobejamente conhecido de todos: dos médicos, enfermagem, porteiro, segurança, do pessoal da farmácia, pessoal da limpeza, motoristas e até de outros jacarés.                                                    

    Jacarés em PS são pessoas, tipos, profundamente adaptados que costumam usar o pronto socorro como se fosse parte de suas propriedades.

     Usam quando bem entendem.

    São espertos, manipuladores, sabem muito bem o que querem e como conseguir.

     Quer um soro na veia? Vai ao PS com uma boa história e consegue.

     Voltaren injetável? Vai com história de dor nas costas, gemendo e claudicando, e fazendo caretas e pronto: vai um Diclofenaco IM mais uma Dipirona EV.

    Aminofilina no soro mais um tubinho de O2 no nariz?  Tendo a patologia crônica, é só deixar descompensar e comparecer no horário daquele médico bonzinho que dá tapinha de camaradagem nas costas, não enche o saco perguntando pelo cigarro nem pelo uso dos remédios; chama a Téc. de Enfermagem e manda instalar tudo: soro, O2, Aminofilina e até a pitadinha de corticoide de que o jacaré tanto gosta. Se não puser ele pergunta: Não vai pôr o corticoide?

    Tem o jacaré da ressaca desidratado e trêmulo, do pitiatismo, da taquiarritmia pós alcoólica, do atestado por não ter ido ao trabalho, da receitinha azul para comprar controlados, os pitiáticos que chegam desacordados com contraturas na face e piscando miúdo, desesperados e apavorando a família. Mobilizam para si todas as atenções e o atendimento; mas uma característica é que todos ali do PS já os conhecem já que de dias em dias, comparecem ao serviço.

     Discutir com eles é inútil. Argumentam, gemem e colocam o público contra o serviço e o médico.

     O importante é que os jacarés têm macetes para entrar na fila de espera em posição privilegiada, têm ótimas histórias para dirigir o raciocínio dos médicos, são amigos de muita gente do PS, conseguem o tratamento quando bem querem, dormem a noite toda no PS, ou melhoram de repente e vão de alta à hora em que bem lhes aprouver.

 Os da receitinha azul de controlados, com esses você pode discutir um pouco e depois ceder, ou pode ceder de pronto e continuar trabalhando. Tem os que quase tiveram infarto uma certa vez e querem um ECG.

 Se não fizermos o ECG, com certeza o infarto virá.

     Os histéricos mormente são urgentes e repetitivos e por isso jacarés.

    Namorados que levaram um fora, namoradas que se sentem rejeitadas, mulheres cujos maridos só chegam bêbados e nas madrugadas, jovens que saíram mal no vestibular, mães preocupadas com filhos que não dão notícia, endividados, abandonados, traídos, etc., etc.

    Às vezes é melhor um jacaré que uma outra emergência.

    No mais das vezes a emergência traz mais satisfação, mormente quando logramos êxito.

    Porém os Jacarés podem nos trazer surpresas quando paramos para ouvi-los e arrependimentos, geralmente, pelo que deixamos de fazer.

    Sempre temos uma solução.

    Normalmente os tratamos com respeito e até com solidariedade e afetividade pois sofrem dores da alma ou são carentes e percebem que o melhor tratamento está ali e vão buscá-lo a seu modo e da maneira que podem.

     Talvez estejam ali dando um grito desesperados pois nem têm mais ânimo ou coragem de confessar o que lhes vai por dentro e os consomem.

     Jacaré e Pronto Socorros estarão sempre ligados. Paciência, no céu não falta.

    Um médico de seu porte e tão altamente preparado, submetido ao cotidiano de um PS. É algo como colocar um general entre infantes combatendo em batalha campal.

     Porém nosso Linneu, o grande médico, é capaz de se adaptar às mais diferentes situações, capaz de fazer uma leitura do ser humano e entender o que lhe vai por dentro e assim lidar com os mais importantes personagens da sociedade sem perder a capacidade de auscultar o simples e entender suas razões e seu sofrer, seus caminhos escolhidos mais por ser premido que por livre escolha.

     Daí foram chegando convulsões, acidentes ofídicos, placenta retida, partos urgentes porque já quase expulsivos, cortes, febres, desidratações... Tudo dentro do dia a dia dos PS. Estranhamente, nenhum auto envenenamento.

     Pronto Socorro é uma área de rotina, de aprendizado, mas também da rapidez de raciocínio, da capacidade de reativar conhecimentos até dos primeiros anos da faculdade de medicina. Estalo, conhecimentos, reflexo, destemor, ação, paciência, vigor físico, psíquico e mental.  Tudo isso ali é necessário.  

     É um ambiente de realização e afirmação do médico. Talvez, por isso exista no céu.

      Não ficou no PS até o fim do plantão. Com poucas horas chamaram pelo seu nome no alto falante, o som era difuso e nítido, vinha de todos os lados, mas com uma suavidade que nem assustava quem era chamado nem incomodava ninguém.

     Deslocado para uma outra sessão, afasta-se dando recomendações, mas sem perder a alegria e a sensação de prazer em ser útil e o orgulho de estar sendo requerido.

                                         Pré-fim   05/2/2021

sábado, 23 de janeiro de 2021

Finalmente o Céu

 

                          Finalmente o Céu.

Reza a lenda que quem vai para o inferno fica condenado ao sempre do eterno sofrimento e ao nunca da eterna desesperança.

Com ele não foi bem assim. Deve ter ido para o inferno mais por uma questão de demanda exacerbada devido a uma pandemia e aos seus capitais pecados de orgulho, vaidade e soberba. Era médico aqui na terra e médicos estão sujeitos e esses pecados acrescidos de egocentrismo, e de um endeusamento que vem desde os tempos de vestibular quando ao serem aprovados, inflam-se de superioridade, pensam-se como deuses da intelectualidade e do saber.

Era cheio de boas intenções, mas sempre futuras.

Exercia a profissão com dedicação e acurácia, mas sempre muito vaidoso e cheio de si. Por mais que lhe pagassem por suas atuações, sempre e sempre achava que merecia mais. Que além do pagamento deveria, certamente, haver um reconhecimento de seu brilho e uma gratidão por seu tempo, atenção, saber acumulado e habilidade de suas mãos dedicados ao ato.

Porém, não se merece o inferno só por ser bom e saber disso.

Dessa vaidade, desse egocentrismo, desse anseio de admiração; advinham qualidades tais como uma grande necessidade de estar sempre estudando, revendo condutas através de publicações em revistas conceituadas e em livros de grandes autores. Trocando ideias com grande luminares os quais julgava estarem próximo de seu nível. Havia alguns que até mereciam seu respeito já que mergulhados em grandes hospitais onde pesquisas se desenvolviam.

Andava imponente e rápido nos corredores do hospital. Não costumava trocar ideias, dava pareceres e orientava condutas, sempre indiscutíveis, prontas e acabadas.

Conversava rápida e apressadamente, com os seres humanos normais, ainda que fossem colegas.

Ainda assim, fazia muitas e muitas coisas boas.

Suas desvirtudes não eram totalmente culpa sua. Tinha a mente brilhante a ponto de ser notado desde criança.

 Teve infância dura, desigual, sofrida, espezinhada.

No futebol era ruinzinho e sempre deixado em segundo plano, tinha que pedir para jogar e perceber os melhores torcerem a cara desaprovando. Indo pescar era sempre o que pegava menos e os menores peixes. Não sabia dançar, não tinha ritmo, ficava nas festinhas mais olhando que participando.

Nos estudos, foi aos poucos se descobrindo. Acabou descobrindo, nos livros; amigos, sonhos, caminhos, companheiros, borbotões de ideias prontinhas para serem colhidas. Ideias que se multiplicavam em sua cabeça, que respondiam perguntas, que traziam conhecimentos, que abriam cortinas para muitos mundos e sobretudo lhe abriam uma estrada ampla e infinita que descortinava para os seus olhos o universo da ciência, do saber, do conhecimento.

Os livros viraram amor. Esse amor virou paixão a medida em que foi descobrindo que livros de matérias específicas como ciência, física, matemática, química e outros; podiam dar prazer e serem lidos como os textos cheios de ideias. Depois descobriu mais pois foi percebendo que conhecimentos específicos facilitavam o entendimento de muitas e muitas ideias mais complexas e que até as tornavam mais e mais interessantes.

Tendo descoberto a pontinha da meada do conhecimento nos livros, agarrou-se a ela, mergulhou e se embebeu na fecunda fonte do conhecimento.

Quanto mais se embebia mais sede tinha.

Essa sede que nunca se aplacava totalmente, provocou tantas mudanças nele e em sua vida que findou por se tornar agradável, bonito, útil, necessário, vencedor e brilhante.

Finalmente chegou a ser um grande médico com domínio pleno de uma especialidade e amplo conhecimento dentro da medicina em geral e de outras áreas do conhecimento.

Não havia situação, tema ou assunto em que sua participação não acrescentasse luzes, soluções ou preciosas orientações.

No que dizia respeito à sua especialidade; era soberano. Segundo seu conceito e o de seus pares.

Era assim que se sentia.

Mas, como sabemos, morreu e como no inferno carecessem desesperadamente de médicos; competentes, capazes de morrer de trabalhar, vaidosos, pluriaptos e egocêntricos.

Foi apressadamente admitido.

Mais tarde, revendo a folha corrida de sua vida, trocaram o termo Folha Corrida por: Curriculum Vitae e, enquanto dormia em seu quartinho mofado e infestado de muriçocas, foi transposto para um lugar maravilhoso; provavelmente o CEU.

Absolutamente afeito aos livros e ao seu trabalho, não era capaz de conceber felicidade sem o exercício da profissão, sem o endeusamento que sentia e que lhe davam devido a suas habilidades aos resultados de suas ações dentro do mundo hospitalar.

Lembrou-se da mãe que já havida morrido, de um amigo, de um tio, e dos avós que não haviam convivido muito com ele.

Aí, portentoso, iluminado, irresistível viu um prédio iluminado por um grande painel brilhante, com o nome: Instituto de Tecnologia e Pesquisa e Complexo Hospitalar - Média e Alta complexidades – 24 Horas.

Meu Deus!...  O Céu, com certeza começa ali!... Exclamou já se dirigindo para lá.

Muito ao contrário do que tinha experimentado no inferno; ali tudo era perfeito. Sabemos que o perfeito tem um conceito geral, mas para cada um de nós pode ter nuances que o diferencia.

A entrada para os médicos era separada da portaria principal por questões de logística. Já imaginava que fosse assim pelo tratamento que tinha quando vivo.

Quando entrava, um embutido alto falante já citava seu nome: Atenção Dr. Linneu (talvez fosse esse o nome dele), pacientes nas salas cinco, seis, oito aguardam suas últimas orientações para que as equipes comecem a atuar; na sala dez encontra-se a paciente sua com cirurgia agendada para hoje. Exames e pareceres pré-operatórios encontram-se na ante-sala que precede a de paramentação. Anestesista, médico auxiliar da cirurgia e todos demais componentes da equipe estão à disposição. Aguardamos ainda sua última palavra.

Experimentou a mente repassando a cirurgia detalhe por detalhe, tentou lembrar os nomes dos componentes da equipe, lembrou um por um. Repassou nomes de remédios, de sais, diluições, rotinas para algum imprevisto, anatomia; tudo vinha com uma clareza e rapidez como nunca, mesmo com sua Mente Brilhante, tivera antes.

Experimentou as pernas, testou a coluna, fez movimentos com o pescoço, com os braços, com as mãos e com os dedos. Tudo em ordem sem nem um pequeno porém. Não sentia fome, nem sede, os órgãos internos não davam qualquer sinal de disfunção ou urgência inoportuna.

Leve, livre, solto e feliz. Eis como se sentia.

Repassando os exames cuidadosamente e os pareceres, lembrou-se perfeitamente da paciente e sentiu que tudo iria dar certo.

Ao trocar de roupa, despiu-se quase que obedecendo um ritual. Desabotou a blusa, retirou-a com cuidado para não amarrotar demais, colocou-a em um cabide e pendurou no amplo armário que estava à sua disposição. Sentou-se e tirou os sapatos e os guardou, por fim despiu-se retirando a calça, carteira e chaveiro não estavam com ele, mas não estranhou. Dobrou cuidadosamente a calça guiado pelos vincos já existentes e pendurou-a no cabide. Começou uma paramentação inicial colocando roupas esterilizadas, máscara, gorro e pró pé. Atravessou um corredor e foi continuar o rigoroso preparo antes de poder entrar em alguma sala.

Deu pareceres, orientações, trocou algumas informações e finalmente dirigiu-se para a sala onde estava sua paciente, acabou de se preparar e receber aventais, luvas etc. E mergulhou no trabalho.

Trabalhou incontáveis horas sem se dar conta de que o tempo passava. Não havia cansaço. O convívio com as equipes era ótimo. O pós operatório era seguro, eficiente, maravilhoso.

Depois de cada cirurgia havia um pequeno congraçamento na sala do cafezinho onde se comentava detalhes, ressaltavam os êxitos, trocavam elogios, esticavam-se as pernas por breves minutos, comentava-se alguma coisa leve do cotidiano e ficava-se por ali até ser chamado para a próxima ação.

O tempo passava de forma completamente diferente do que acontece em nosso mundo.

Em um determinado momento sentia-se que era necessário mudar tudo para o refazimento do ânimo, da vontade e da percepção de tudo. Então todo mundo voltava para o cotidiano do Céu.

A alimentação já fora feita no hospital, mas podiam se sentar num local de refeição e ter uma mesa só para si ou usufruir da companhia de sua preferência. Amigo, esposa, filhos, conhecidos ou o que lhe fosse aprazível.

Depois havia uma sala de estar onde também se podia escolher a companhia. Até grandes sábios como Pasteur, Einstein, Gabo e outros podiam estar com ele. Por alguma tecnologia que ainda não temos por aqui.

O fato é que ele, embora não notasse cansaço, estava louco por um bom banho, roupas limpas, cama macia e fresquinha e uma noite silenciosa e tranquila.

Tudo lhe foi concedido.

                                                 (A seguir UTI e plantões)