segunda-feira, 7 de junho de 2021

Branca de Neve - Início

 

Branca de Neve - Prólogo

 


Durante a concepção Branca de Neve já era destinada a ter uma beleza de contos de fadas.

Nevava!...

Pela transparência da janela a mãe, acariciando com leveza o abdome que já se destacava, olhava a neve enquanto bordava. Tocada pelo momento balbuciou o desejo de ter uma filha branca como a neve, de cabelos negros como o ébano da moldura da janela, os lábios róseos a ponto de lembrarem duas gotas de sangue que uma picada de agulha lhe arrancara do indicador; talvez por se permitir apreciar a neve ao tempo em bordava distraída.

 Uma fada benfazeja que por ali passava, ouviu e deu-se ao capricho de realizar esse seu desejo.

Passado algum tempo  Branca de Neve veio ao mundo com toda a beleza sonhada pela mãe e com uma meiguice e graça que Deus concedeu por acréscimo.

E saudável... Risonha... Adorável.

No entanto, a mãe sucumbiu dias depois do parto..

Partiu, não sem antes comprimir a filha contra o corpo, transmitindo-lhe infinito amor. Não sem antes amamentar a criança que sorveu defesas e vida do leite materno conseguido.

 Morreu a mãe muito jovem ainda.

O Rei, triste e solitário, cumpriu o período de luto com recolhimento e sombria tristeza.

Era, porém. escassa sua resiliência.

Assim, passado mais um tempo, enamorou-se e findou por casar-se com a mais linda mulher do reino.

 Linda, belíssima, mas muito vaidosa e, lá bem no íntimo, pérfida.

A nova rainha possuía um espelho mágico, com o qual conversava várias vezes ao dia e, no qual conferia sua beleza e sua posição de mais bela do reino.

Assim é que:

Criou Branca de Neve, com algum desvelo, até o momento em que percebeu nela sinais de uma beleza capaz de superar sobejamente sua própria beleza.

Isso era intolerável para a bela madrasta.



Passaram-se alguns anos.

Espelho, espelho meu, haverá alguém no mundo mais bonita do que eu?
Era uma rainha muito bonita, sensual, perfumada, alinhando os cabelos, conferindo os dentes recém escovados, e fazendo beicinho enquanto dava uns retoques no batom.
O espelho olhou... olhou, refletiu incontáveis raios de luz de diferentes comprimentos de onda vindos da apetitosa rainha, depois meditou e refletiu longamente (agora reflexão mental).


- Hum!.... Pensou o polidíssimo e ovalado segmento de cristal.


Era um espelho do mais fino cristal, ovalado, perfeito em sua superfície e adornado em suas bordas por uma moldura de couro esmeradamente tratado e fina e artisticamente trabalhado com flores a arabescos de cuja criação e execução participaram artífices do mais alto nível, artistas os mais refinados e inspirados.


O espelho olhava, sem ser percebido no conteúdo de seu olhar. Olhava a bela rainha, a mulher maravilhosa postada à sua frente, como se cumprisse a sua modesta e repetitiva função de espelhar, de refletir fielmente a imagem dela, mas longe disso, o pobre espelho a devorava com os olhos.


Tão afeito estava a ela, a bela madona que todos os dias, várias vezes por dia; nos mais variados momentos; nas mais diversas condições vinha se postar diante dele sem desconfiar que cada imagem dela projetada no interior dele; ali ficava para sempre retida num mecanismo de memória sensorial ou imunológica leucocitária que ainda hoje não compreendemos bem.


- Espelho, espelho meu... haverá alguém no mundo mais bonita do que eu?... Insistia a rainha.


Às vezes a pergunta era feita por uma rainha toda produzida, com echarpe verde-musgo no pescoço, um vestido encantador e um casaco que destacava a beleza dela e do conjunto. E o espelho prontamente dizia: Não!.... Não há nem nunca haverá.
Como a sala de toalete ficava no quarto quase como uma extensão do banheiro; havia as vezes em que ela vinha apenas com uma felpuda e bela toalha envolvendo parcialmente o corpo escultural e de pele maravilhosa. O espelho quase perdia a voz ao ter que responder à pergunta de sempre. Porém respondia sem ter nunca que mentir:
Não há e nunca haverá!...


Enquanto isso... Não muito distante dali... Na floresta negra... Morando escondida entre respeitosos e simpáticos anões, vivia Branca de Neve que ia pouco a pouco deixando de ser criança e já era agora uma adolescente vivaz, lépida, formosa, louçã, com o mais encantador sorriso sempre presente nos lábios, os dentes tão brancos que chegavam a ser luminosos, a face de um rubor tão belo e juvenil que poderia se rivalizar com as mais belas romãs, com os lábios castos e atrevidos; róseos úmidos e inocentes.
Nenhuma beleza é tão bela quanto aquela que se desperta, quanto uma beleza que todo dia é mais bela. Quanto um conjunto maravilhoso que se aprimora a cada instante, continua se aprimorando incessantemente mesmo no momento em que está sendo analisado, comparado ou julgado.


Concebida pela primeira esposa do rei, seu pai, Branca de Neve tivera a morte encomendada por esta que se mirava no espelho em busca de afirmação. Lábios róseos, pele alva, cabelos e olhos negros e beleza angelical. Por isso Branca de Neve, por isso odiada pela madrasta que dera ordem para que fosse eliminada no meio da floresta. O carrasco se condoeu e não a matou. Abandonou-a na floresta dando-lhe uma última chance de viver. Branca de Neve sobreviveu.


- Espelho, espelho meu, haverá alguém no mundo mais bonita do que eu?...


O pobre espelho nunca tinha visto Branca de Neve mas pressentia, sabia por uma propriedade do mundo das imagens, que Branca de Neve estava vindo com tudo: encantadora, juvenil, meiga, inocente, correndo pela floresta, comendo frutos silvestres e sem agrotóxico, bebendo a mais pura água das nascentes, se banhando ao sol, dormindo do pôr ao nascer do astro rei, respirando o mais puro ar, vivendo entre  amigos e em contato com o frescor e os sons da natureza.


Branca de neve tinha todos os atributos do DNA da família e, portanto, sangue azul, pele alva, traços sutis e bem delineados, gestos delicados e encantadores, lábios rosados e mais, e mais... Branca de Neve tinha ainda tudo o mais que a natureza acrescenta aos seres que mantém com ela um contato saudável e longo.
O pobre espelho não sabia mentir. Balbuciou gaguejando numa última tentativa de não desagradar sua dona, sua musa.


Si.... si... sim...! No bosque, isto é, na Floresta Negra há uma petiza que desabrocha e está prestes... ou melhor, que já ocuparia hoje o podium da beleza aqui de nossa região.  Talvez por uns meros e insignificantes pontos. Não no meu coração!... Mas para o mundo sim!....


A rainha enfurecida, nem ouviu a frase: não no meu coração. Arremessou o pobre do espelho contra a parede que era de pedra polida e o espelho se fragmentou em incontáveis cacos que repetiam sem parar: sim, sim, sim... exasperando ainda mais a rainha.


Enfurecida e enlouquecida a rainha partiu para a floresta em busca de Branca de Neve para eliminá-la e, possivelmente, apagar todos os vestígios do crime.
Nem eliminou a branquela, nem os vestígios, pois o caso se tornou público e até hoje todo mundo sabe da história.

Em verdade, em verdade vos digo: A rainha enfurecida tentou estilhaçar o espelho que , sendo mágico, satisfez-lhe o primeiro ímpeto no intento  de acalmá-la; de conduzi-la a se recompor, a recuperar a razão.


A miríade de fragmentos não aconteceu realmente, não mais foi que uma ilusão para chocar a rainha e refazê-la em seu psicológico. Recobrada a dita razão, logo veio um profundo arrependimento pela perda do amigo, do fã ardoroso, do incentivador perene. 


O pranto quase veio aos olhos da bela rainha. Quis de volta o conselheiro, o mais famoso espelho de todos os tempos em todo o mundo.

 
O espelho então, mágico que era, voltou a brilhar no seu lugar de sempre refletindo as imagens, ora recatadas, ora adornadas apenas pela toalha que deslizando pelo corpo deixava à mostra, por partes, uma nudez que nunca era total, mas que com memória e imaginação acabava, como num quebra-cabeças, compondo-se e revelando o todo. Paciente e atento, ia cada vez mais colhendo imagens e se escravizando naquele amor algo platônico e, a um só tempo, real.


Enfim, ali estava o espelho.
Aqui estava a rainha e, num bosque não muito longe dali estava Branca de Neve, leve e solta, inculta e bela como a última flor do Lácio.


- Espelho, espelho meu, onde é mesmo que mora essa ninfeta tão maravilhosa?


-  Na Floresta Negra, minha rainha. 

Habita a morada de uns anõezinhos mineradores que lhe deram guarida naquela vez em um caçador deveria tê-la eliminado, mas a quase certeza de que ela não sobreviveria aos rigores e perigos da floresta, o levou a deixar que a má sorte cuidasse disso.


- E o coração que comi pensando ser o dela, será possível tão torpe farsa?


- Era de um cervo, um pobre animal sacrificado.

Maldito caçador, pensou a rainha que mesmo irada e decepcionada, não deixava de ser linda. Primeiro vou cuidar da branca como a neve, rubra nos lábios como uma pequena gota de sangue provocada por uma espetada de agulha e de cabelos negros como o ébano ou a asa da graúna.


Ainda que ele habitasse além muito além daquela serra que ainda azula no horizonte, num lugar tão distante que até o pensamento levasse algum tempo para atingir; ainda assim eu a alcançaria.

 Morando logo ali, na floresta Negra; não tardarei em tê-la ao alcance das mãos e de minha capacidade de envolvê-la.
Se bem pensou, melhor tratou de fazer.

Disfarçada de doce velhinha que andava pela floresta espalhando bondades populistas, nossa encantadora rainha acabou por chegar na casinha dos 7 anões, ou seja, de Branca de Neve.


Como quase ninguém usasse andar por aquelas plagas, tão logo se aproximou, Branca de Neve apareceu na janela, ainda um pouco despenteada já que mal acabara de levantar-se, e assim não estava com a beleza em todo o seu fulgor.

Hum... Pensou a rainha. Essa aí é que é a tal de mais bela que eu?

 Uma pequena dúvida perpassou seu cérebro.

Bem, mas eu vim aqui para fazer julgamentos ou para eliminar o inimigo?... Perguntou-se num balbucio.

Cumprimentou gentilmente, fez um gracejo, um elogio; foi ganhando a confiança da boboca da Branca de Neve, até que lhe ofereceu um belíssimo pente, digno daqueles cabelos negros, brilhantes e sedosos. Despediu-se e foi embora.

 Mal cerrou a janela e já Branca de Neve, em sua vaidade pueril, intentou pentear-se. O pente era envenenado, talvez fosse curare o poderoso veneno usado em zarabatanas de caçadores de macacos; o fato, é que tão logo tentou pentear-se e já caiu inerte sobre alguma coisa macia que evitou uma concussão ou alguma fratura.

 

Tudo indica que a capacidade de respirar ficou preservada pois, ao fim da tarde, quando os anões ali chegaram a encontraram caída e, logo que tiraram o tal pente de seus cabelos, ela já começou a melhorar e algum tempo depois já restabelecida, contou tudo a eles que então recomendaram-lhe ter todo cuidado com estranhos,  não convidar para entrar e nem aceitar presentes.


Contam que a rainha fez várias e ardilosas tentativas mais, com o mesmo intento: eliminar a concorrência.

Numa última e desesperada tentativa, talvez inspirada na história do paraíso, valeu-se de uma maçã envenenada e de uma lábia sibilina e sub-reptícia.
Envolveu completamente Branca de Neve com belos adjetivos, com verbos e advérbios bem colocados, com interjeições convincentes, com um substantivo atraente e fatal: uma maçã vermelho-dourada, irresistível e cuidadosamente envenenada.

Para ganhar completamente a confiança da púbere criatura, partiu a suculenta maçã ao meio e começou a comer uma metade, oferecendo a outra metade à inocente Branca que, com as glândulas salivares inundando lhe a boca, não ofereceu qualquer resistência. Tomou a sua metade, até com certa voracidade e mordeu um grande naco.
 Caiu, dessa vez, como morta.

A rainha zarpou-se e foi novamente conversar com o espelho que a encheu de certezas e elogios.

Chegando em casa, após extenuante dia de trabalho, os anões desesperaram-se e tentaram de tudo para trazer de volta à vida a mais linda criatura que já tinham visto.
Depois de vários e inúteis esforços, ventilando com um abanador, usando os mais poderosos e modernos aromatizantes, aspergindo lhe o rosto com agua fria, chamando-a pelo nome, mandando que piscasse etc. etc. Deram-se por vencidos.

 

No entanto perceberam que sua beleza se mantinha, havia uma perfusão adivinhada, uma insuspeitada oxigenação ainda que mínima.
Não tiveram coragem de enterrá-la com tão bela aparência, com tanta beleza preservada.

- Vamos conservá-la numa redoma de cristal no alto daquela colina, cercada de um jardim de lírios e rosas.

E assim fizeram.

O pior não aconteceu, porque logo apareceu um príncipe o qual vendo tão bela criatura naquela redoma, pediu que lhe a dessem para que a tivesse conservada em seu palácio com todo cuidado.
Os anões anuíram. Não sem antes promoverem um rápido conciliábulo entre eles mesmos.

No trajeto para o palácio, no caminho tinha uma pedra, uma providencial pedra no caminho provocou tão rude bacada que o corpo foi sacudido e um pedaço de maçã que se alojara na garganta de Branca de Neve, foi expelido e com as vias aéreas totalmente livres e livre também da ação do veneno, Branca de Neve recobrou a vida.

Totalmente apaixonado e, tendo lhe salvo a vida; o príncipe propôs casamento a Branca de Neve que aceitou emocionada.


O casamento deu-se tempos depois, com uma festa tão linda e grandiosa que ficou na história para sempre. Compareceu à festa, após a cerimônia religiosa, luterana ou católica, não está claro; gentes de toda a redondeza: os anões, o caçador que não matou, serviçais, o velho rei pai de Branca e a Rainha que assistiu comportadamente o matrimônio, despediu-se cumprimentando os noivos polidamente e se retirou denotando visível depressão e, por isso corre o boato de tenha se lançado em um precipício em busca da morte. 

Esse autor, de coração compreensivo, valorizador de mulheres pós trinta, pós quarenta... pós 50, pós n...; acha que a família acabou por se entender, houve um perdão abrangente e geral dos personagens (acordão) e todos viveram felizes para sempre.

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