quinta-feira, 23 de julho de 2020

PANDEMIA

PANDEMIA
Era um fim de dia, a luz do sol já não era tanta, não era ainda hora de a noite chegar, mas a brandura da luz do sol já permitia que a gente olhasse para o poente.
Olhando em direção ao horizonte fomos lentamente percebendo algo como se fosse uma discreta nuvem. Talvez de aves, andorinhas possivelmente.;
Só quando o fenômeno se aproximou mais é que notamos pelo silêncio, pelas formas dos que estavam à frente e pela sutileza dos movimentos, que não eram pássaros, nem morcegos, nem gafanhotos.
Impressionavam pela nuvem que formavam sendo capaz de desenhar um arco no horizonte.
Eram brancos, arredondados em sua porção anterior e se disfarçavam no restante dos corpos porque se sobrepunham em várias camadas, eram pequenos e assim se tornavam mais densos como se também obedecessem a alguma lei da nossa física.
Fantasmas, almas sem corpo foi o que foi o que lentamente se delineou até ser bastante nítido.
Por se sobreporem em várias camadas e pela densidade somada, compunham uma nuvem capaz de arrefecer, ainda que levemente, a luminosidade que ainda restava no céu.
Vivíamos tempos de uma pandemia onde as pessoas morriam aos milhares, todos os dias, devido a alguma coisa tão pequena, inodora, invisível, silenciosa e sutil que nos parecia estarmos a mercê de alguma maldição ou castigo de Deus.
Em verdade um vírus somado à interpretação social e psicológica do ser humano.
Outra propriedade da maldição, além de adoecer e matar no mundo todo, era a indiferença que causava nas pessoas ainda não afetadas.
Atarantada, a humanidade ignorava o mal.
Quase não se viam os mortos já que morriam nos hospitais e eram sepultados sem contato com as famílias. Apenas se dava por falta de um ou de outro indivíduo e se ficava sabendo que partira.
As almas se desprendiam todos os dias em tal quantidade que, possivelmente, não apenas os hospitais ficavam superlotados, não só os crematórios, não só os cemitérios; mas os caminhos do céu, do purgatório e de qualquer outro destino das almas também se abarrotavam, com certeza.
Daí a profusão de fantasmas que devem ter se reunido em nuvens e perambulavam nos céus do mundo
E chegaram até ali naquele fim de tarde.
Um fantasma ocasional a gente sabia que existia. Fantasmas em pequenos grupos eram relatados pelos notívagos contumazes e havia até comprovações. Mas, uma nuvem de pequenos fantasmas surgida no horizonte e postada sobre a cidade, pairando, voejando e alternando posições.
Nunca tínhamos visto.
Era inacreditável.
Havia muita coisa acontecendo nos mundos. A inversão do campo polar da terra, tempestades solares, mudanças de clima na terra, ondas eletromagnéticas de toda ordem e cada vez mais, inconsequentemente produzidas, circundando o planeta e perpassando as mentes e os órgãos todos de todos os seres.
Crateras imensas nas camadas de proteção do planeta.
O Céu era uma azáfama só. Desde a recepção onde as portas de entrada tiveram que ser abertas totalmente, tal como já acontecera na segunda guerra, tal era o número de almas que chegavam atônitas, confusas, arfantes ainda por terem vindo diretas de respiradores, além das que morreram de outras causas mas somavam-se à multidão das que vinham da pandemia. O sacrossanto pessoal do controle tinha sido triplicado e ainda tinha dificuldade de dar fluência ao grande número de recém-chegados. As instalações tinham que ser ampliadas rapidamente o que levava a improvisações, ao menos num primeiro momento. Tudo ia se resolvendo, mas demandava algum tempo e fazia com que almas e mais almas se mantivessem aqui no planeta terra, de um lado para outro enquanto aguardavam a vez de se erguerem em direção à morada eterna.
Também quem tinha outros destinos precisava aguardar classificação e existência de vagas.
Tantos acontecimentos coexistiam com a humanidade e, pode ser que por isso, os fantasmas tão numerosos e desorientados puderam se tornar visíveis.
Nem acreditávamos no que víamos e nem é da natureza da mente humana visualizar essa outra dimensão onde as almas habitam.
Começou a crescer um medo em todo mundo.
Começamos a rezar olhando o para cima e apontando o fenômeno.
Com pouco tempo veio o padre local convocando, desesperado, o povo para uma procissão de perdão, de livramento, de confissões de culpas, de pedidos a Deus, de sacrifícios. E, os que eram católicos foram se organizando em filas, vindos de todos os lados: das casas, dos bairros distantes, da rua, das vendas que iam se fechando, dos bares, da própria rua que estava apinhada de gentes temerosas, mas também curiosas. E foi se formando filas e mais filas numa grande procissão. Trouxeram paramentos às pressas, e andores, e mastros, e turíbulos com incensos, e aspersores de água benta, e rosários, e sinetas e até um púlpito portátil para o padre subir e distribuir ordens além de ir iniciando cânticos e rezas apropriadas para o momento e o evento.
Também os pastores conclamaram os seus fiéis e nossa cidade contava com pelo menos três denominações evangélicas. Se eram em número menor, o seu fervor soava caloroso, sonoro e cheio de uma fé capaz de remover montanhas, pelo que inspiravam a maior confiança em ser capaz de contribuir para que aquela inusitada nuvem de fantasmas fosse conduzida para perto de Deus e deixasse de nos assombrar,
Depois vieram as rezadeiras também fervorosas e prontas para invocar santos e mais santos em nosso socorro.
Vieram também os espiritualistas. Vieram pessoas de outros povos com outras crenças e outras religiões.
Foi a maior e mais ecumênica reunião espontânea de credos e de crentes, a mais densa e fervorosa de que se tem notícia até hoje por lá. Todos oravam fervorosamente, e o padre conclamava seus fiéis a buscarem o altíssimo em suas preces e pensamentos. Então puderam ser vistos até com alguns detalhes.
As aparências variavam, mas a característica principal era serem pequenos, brancos e não parecerem querer nos incomodar. Talvez estivessem de passagem.
Não se sabia.
Orávamos fervorosamente pedindo a Deus que os levasse.
A peste era a origem da profusão de fantasmas errantes que se organizava em bandos imensos, ordenados e sem outra motivação que não fosse aguardar sua vez de serem acolhidos no seu destino final.
A grande peste era causada por seres mais invisíveis que os fantasmas; mais temíveis; tão infinitamente pequenos que seus campos magnéticos eram indetectáveis. Apenas os grandes laboratórios comprovavam a existência deles e até descreviam a forma, mas o povo não os via.
Para o povo os fantasmas eram mais concretos e, nesse instante podíamos vê-los.
Porém, os fantasmas, exatamente os fantasmas eram a rubrica da existência da peste. Cada fantasma correspondia à perda de um ente querido.
Muitos da multidão já tinha sofrido uma ou mais perda sentida e lembrada. Vários tinha uma ou mais tristeza dentro de si acompanhada de temores de novas perdas e pela própria vida. No entanto, para a maioria, a peste despertava a curiosidade, era notícia, porém um estranho fenômeno psíquico os levava à negação ou à indiferença.
Aí começou o milagre da emanação em forma de um clarão que se ergueu a partir da multidão que orava e foi se elevando em direção à nuvem.
Na medida em que a luminescência se aproximava, os seres que pairavam sobre a cidade foram se organizando numa grande formação circular e, assumindo a forma de um funil invertido, começaram a subir como um torvelinho, como se fosse um redemoinho indo em direção ao infinito. Porém de forma ordenada e de moderada velocidade.
Eram tantos que foi longo o tempo em que foram e foram subindo e indo embora. Caiu a noite e eles continuavam a entrar no torvelinho indo lentamente em direção ao seu destino. Como muitos de nós supunha ter alguém entre eles, desejávamos fervorosamente que o destino fosse os Reinos dos Céus, a eternidade celeste, Deus.
E eles continuavam a ir e ir e pela noite deve ter finalmente ido até o último deles.
Parece que aquele foi um sinal de Deus aos homens pois a partir daquela tarde começaram a ecoar notícias boas de surgimento de vacinas, de conscientização da humanidade não só em relação à pandemia em si, mas também em relação ao que se fazia e vinha destruindo todo o grande equilíbrio estabelecido pelo criador para a existência de todas as formas de vidas na terra, coexistindo em harmonia em sua interdependência indissolúvel. Talvez o recado fosse de que os organismos todos que cobrem o planeta fazem parte de um mesmo sistema capaz de suportar interferências e mudanças, mas com limites estabelecidos e muito sensíveis.
Com o cair da noite, a multidão se desfez aos poucos com cada um tomando o rumo de seu lar.
Na manhã seguinte um sol radiante iluminou o dia e as mentes. Ainda houve comentários, mas predominava uma postura meditativa e uma expressão de esperança e otimismo.
Pode ser que em várias partes do mundo tenha se repetido fenômenos semelhantes pois a pandemia se enfraqueceu, as vacinas chegaram a cada ser humano existente, efeitos manadas também se fizeram sentir; os vírus, de tanto se mutarem acabaram meio inertes e voltando murchinhos para morcegos chineses.
Durante um longo tempo a humanidade se ocupou trabalhando arduamente, se recompondo, reorganizando, repondo conhecimentos, refazendo, limpando, reestruturando o muito que foi destruído mesmo sem bombas. O emocional demandou mais tempo. Muita coisa era sem conserto, tal como nos pós guerras.
Desde então cientistas do mundo inteiro passaram a se empenhar na preservação do ambiente invisível que nos cerca promovendo a limpeza do excesso de ondas e emanações que poluem o espaço atmosférico onde tudo e todos estamos mergulhados.
No entanto percebia-se claramente que os que aqui ficaram estavam tendo mais uma oportunidade.
21/07/2020 - Rilmar 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Blusa Amarela

Blusa Amarela


Blusa Amarela (os simples herdarão o mundo)



                                                     Com meu cavalo cansado,
                                                    Quando a tarde já morria,
                                                    Passei na porta da casa,
                                                    De quem, eu tanto queria.



Num arame no quintal,
Uma lembrança singela,
Um mimo que ela, vestindo,
Ficava ainda mais bela

                                                    Um vento sutil, batendo,
                                                    Balançava a blusa dela,
                                                   Por desventura, a mesma brisa,
                                                   Cerrou de leve a janela.

Com uma dor funda no peito,
Uma mágoa dolorida
Fui me afastando sem ver
A mulher da minha vida

                                                  Só cumpria a minha sina,
                                                 A vida me fez assim,
                                                O destino e a viola,
                                                Tiraram ela de mim.

Com a esperança da paixão,
Ainda olhei para a janela,
Tudo que vi foi o vento
Balançando a blusa dela.


                                                   O vento ainda machucou,
                                                  Trazendo a fragrância dela,
                                                  Num restinho de perfume
                                                  Da blusinha amarela
Doce e infinita tristeza,
Um profundo sentimento,
Tão sutilmente trazidos,
 Pela leveza do vento.

                     Me afastando lentamente,
                     Eu não vi, mas pressenti,
                     Num vãozinho da janela,
                      Ela... olhando p'ra mim.

Aquele olhar pressentido,
Aguçou meu pensamento,
Segui tristonho pela noite,
 No frio daquele vento.
                                               
  E pelo mundo vagando,
Os meus caminhos eu sigo,
As lembranças sempre voltam,
Ela está sempre comigo.



 Rilmar - 2014

sábado, 13 de junho de 2020

Fonte Divina

                      Fonte Divina

Passava eu nesse dia por uma via tortuosa, estreita, carcomida pelo tempo, o sol e, talvez, as chuvas. Mais que um trieiro, pouco mais que um caminho, mas longe, muito longe de ser uma estrada por onde algum veículo pudesse passar; talvez uma carroça puxada por um cavalo acostumado com as irregularidades conseguisse por ela trafegar vagarosamente, escolhendo caminhos e ainda assim, com dificuldades e solavancos. 
A tarde ia pelo meio. O sol escaldava impiedoso, mas desenhava sombras ocasionais dos arbustos que aqui e ali ladeavam a estradinha, ou ficavam uns tantos metros distantes de suas bordas.
 A sede e o calor me acossavam. O cansaço não era tanto. Tinha alguma pressa, mas sabia que caminharia ainda a tarde toda e só quase ao cair da noite chegaria ao meu destino. Meu abrigo, meu lar humilde e aconchegante.
No silencio daquela solidão fui percebendo lentamente um longínquo e agradável som. Um choro, um chororó, um barulhinho de água caindo, mas tão sutil, tão leve, tão belo e oportuno que temi ser uma ilusão.
Parei e me sentei à sobra rala de uma lobeira que projetava sua silhueta sobre a via por onde eu caminhava.
Com um galhinho de uma pitangueira que crescia ali por perto, varri o chão ao meu redor tentando afastar algumas formigas e outros insetos rasteiros que também disputavam a tênue e preciosa sombra.
Após um breve descanso, apurando bem os ouvidos fazendo uma concha com a mão delineei o rumo e o provável local de onde vinha aquela música da natureza que soava como um sutil lamento, como um canto convidando à vida.
Seria uma nascente? Uma pequena mina até então desconhecida para mim? Talvez fosse apenas uma ilusão que acabaria por prolongar meu tempo de jornada.
Andei por entre arbustos e ervas rasteiras, sem caminhos, em direção àquela música, ao som que não só me animava, como também me encantava pelo seu próprio timbre e sonoridade.
Com algum tempo de caminhada cheguei a um conjunto de grandes e sólidas pedras, uns restos de montanhas talvez.
O som era mais nítido ali. Busquei, busquei e cheguei a uma enorme pedra ferro, pedra que se batermos um objeto metálico contra ela produzimos faísca de fogo sem que a pedra dê qualquer sinal de corrosão.
Ali, bem ao pé da pedra, como se fosse um milagre; mais como um esguicho que um jorro, brotava a mais límpida água da natureza: água de rocha. Escorria uma fina camada líquida que se juntava em um pocinho minúsculo de fundo arenoso e, logo acima dela,  projetava-se como obra de Deus um perene filete de água, tão límpido e brilhante que encantava os nossos olhos antes de o percebermos como sendo capaz de aplacar-nos a sede.
Projetava-se, percorria o espaço de um a um e meio palmo, ia um pouco para cima, em seguida se curvava, perdia um pouco a forma de fio e caia sobre o pocinho formado pela lâmina d’água que deslizava pela pedra e se empoçava á espera dele.
Dessa queda, desse choque puntiforme contra a poça d’água, nascia o som que era música, lamento e choro a um só tempo, a pedra mãe e mais duas ou três pedras em redor, se posicionavam de forma tal que ampliavam o som de modo a ser ouvido de muito longe.
Um canto irresistível.
Ao redor, como um pequeno oásis, a vegetação exuberava exalando vida em seu verde, em flores de modestos lírios, mas de porte rasteiro, talvez para não atrair muito as atenções.
Detive-me por breve instante a admirar. Depois curvei-me e colhendo aquele jorro que contrastava com a rudeza de minhas mãos em concha, sorvi daquela água fresca, límpida e pura. 
Saciada a sede, refrescada a alma, ainda me detive encantado com aquele milagre de limpidez e de sonoridade. Cerrava os olhos para ouvir melhor em seguida procurava olhar de vários ângulos para fixar na mente a beleza tanta daquele minúsculo e perene milagre capaz de enlevar as almas. 
Almas de todos os matizes.
Afastei-me, a princípio lentamente, mas logo retomei a marcha, passei pela lobeira cuja sombra agora já se esgueirava mais longamente em direção ao meu caminho.
Não conseguiria chegar antes do pôr do sol, mas tinha o que contar e detalhar quando chegasse em casa.
Aí, bateu uma saudade forte e então apressei o passo me afastando dali.
12/06/2020    - rilmar



quarta-feira, 13 de maio de 2020

A Vida é Uma Locomotiva

Aqueles que hoje me veem não me veem por inteiro já deixei partes no caminho. Somos como aquelas grandes e robustas locomotivas 🚂 que partiam cheias de juventude e energias para uma imensa jornada. No início solitárias e eivadas de missões e compromissos. Aí, iam percorrendo trilhos e tinham, assim, um caminho previamente traçado. Apanhavam vagões abarrotados e pesadíssimos, e mais e mais vagões , e tinham que os levar céleres e seguros, cada um ao seu destino. A cada vagão entregue, outros lhe eram acoplados sem considerarem muito seu ânimo ou seu potencial. Mas, na ilusão e no ímpeto da juventude, os desafios sempre nos orgulham. Longos caminhos. A vida são caminhos percorridos, percorrendo e a percorrer. No percurso deixamos e apanhamos vagões, muitas vezes apanhamos vagões que deixamos na ida e os levamos de volta para voltarmos a reconduzi-los um dia. O desgaste, o tempo e os trechos caminham como se separados fossem, mas são, na verdade, sincrônicos e paralelos. Depois de atingirmos o auge de nossa força, de nossa capacidade do resfolegar barulhento, da sonoridade de nosso sino anunciando nossas chegadas, das entradas triunfantes nas estações das cidades, vamos a um só tempo lenta e vertiginosamente, mais deixando vagões que os apanhando. A lentidão é o que a percepção nos revela, o vertiginoso é a realidade de mãos dadas com o tempo e o desgaste. E, no escoar do tempo, pelos caminhos vamos deixando vagões que nunca mais conduziremos. Vagões deixados viram saudades mas não seríamos mais capazes de reconduzi-los, não está mais em nós a mesma energia e algumas peças já denotam algum desgaste. Agora vagões deixados são partes de nós que ficaram nos trajetos. Falta-nos ânimo para tentar resgata-los. Aqueles que hoje me veem não me viram no meu auge pois somos todos locomotivas 🚂 que resfolegam ainda, mas com um resfolegar carente de decibéis, com uma fumaça que não forma grandes nuvens e com energia tão somente capaz de nos levar de um lado para o outro em busca de manutenção ou de repouso em um desvio ocioso. 29 de janeiro de 2020

Chuva Copiosa

Chove copiosamente.
Nos poucos momentos em que parece que a chuva parou, vou até à porta e olho o céu, não preciso olhar o céu, basta olhar o tempo para saber que a chuva apenas amainou um pouco e agora cai sutil e continuamente e nossa percepção é que está avariada pelo contínuo barulho da chuva, pelo vento frio ininterrupto, pela umidade que envolve, adentra e consegue empapar até o nosso psiquismo.
Chove, chove sem parar. O cinzento da atmosfera, a pouca luz, o silêncio dos outros sons que não seja o da chuva caindo; batendo, abrandando e se intensificando com o passar do tempo; atuam nas almas. Há um imenso silêncio, vez que até os pássaros se recolheram e quietinhos, encolhidos, mudos, cerram os olhos e ficam imóveis economizando energia e esperando novos sinais da natureza.
Abro o WhatsApp e me deparo com uma coletânea de músicas que alguém postou. Musicas de tempos vividos. A mente viaja passado afora, vem um ânimo bom, sinto companhia das lembranças, dos tempos idos, dos amigos e de coisas que a contemporaneidade das músicas, dos arranjos e das interpretações nos trazem. A chuva, a pouca luz, o acinzentado do tempo, a absoluta impossibilidade de atuar sobre a natureza; tudo aumenta nossa concentração e facilita a absorção de cada item contido na arte da música, da letra, do arranjo, da sonoridade dos instrumentos, das vozes, das expressões dos intérpretes.
A natureza nos manipula, nos burila, nos alegra e nos entristece a seu bel prazer. Também ela, a natureza, parece viver e se emocionar tanto quanto nós que nos percebemos indivíduos, mas somos apenas parte inseparável dessa chuva, desse vento, desse frio; dessa nossa mãe, a Natureza.
rilmar - janeiro 2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

MUNDOS TRANSCENDENTAIS

[18:58, 10/05/2020] Rilmar:

       Ali os mundos se misturavam com inacreditável naturalidade                       
As aparições eram comuns, encontros com o sobrenatural frequentes, ao tempo em que também muitos entes celestiais nos visitavam.
 Ninguém poderia negar já ter experimentado contatos com outros mundos diversas, muitas vezes. Fosse pelo medo, crença, fé, pela criatividade ou devido à sensibilidade aflorada por ingestão de alguma aguardente da região.
Todo mundo tinha medo ou, ao menos, muito respeito. 
Mesmo os mais incrédulos se benziam várias vezes e, orando baixinho, se apegavam com Deus ou com seus santos de devoção quando por algum motivo perdiam a hora e tinham que percorrer tarde da noite as silenciosas ruas mal iluminadas com antigos postes de aroeira e lâmpadas amarelas que mal clareavam um círculo embaixo dos tortuosos postes que as sustentavam.
 Havia ainda as corujas, os gatos os cães criados soltos, os bêbados, os ambulantes malucos imprevisíveis e, de raro em raro, um malfeitor a procura de vítimas. 
 No entanto, os seres do além eram a fonte mais costumeira de nossos medos. 
As almas do outro mundo eram uma presença constante. 
Ou porque estivessem ali à nossa vista, ou vindo em nossa direção e fossem aparecer a qualquer momento; ou porque andando sozinhos na noite lembrávamos delas e o medo nos tomava.
 A gente tinha medo de olhar para a frente e vislumbrar alguma furtiva sombra brancacenta atravessando a rua ou andando na calçada à nossa frente. 
As ruas, dos dois lados, além da sarjeta e a calçadinha mal preservada  eram cercadas por grandes e antigos casarões e os imensos muros de taipa que os separavam escondiam sombrios quintais que além de demarcarem longas distâncias entre as casas, ainda se prolongavam para o fundo indo e
indo rumo à imensa escuridão. 
Qualquer coisa real ou sobrenatural poderia habitar aquele ermo na quietude silenciosa da noite escura.
Havendo o habitat, o medo, as lembranças das narrativas ditas como verdadeiras, a fragilidade de um ser humano caminhando sozinho na noite; fica quase impossível não haver o predador temido, a alma que necessita falar com algum vivente para fazer alguma última confissão, para amedrontar; ou um ser do mal a serviço do tinhoso. 
O medo e a fragilidade já são o bastante para nossa tortura, mas pioram quando temos que ir sempre em direção a um destino, nossa casa. Sem outros caminhos.  Não ter como desistir. E ainda por sabermos que as pernas às vezes bambeiam nessas horas, não nos possibilitam fugir correndo uma vez detectado o perigo.
Persignar-se pode ser inútil.
Preces ficam, no mais das vezes, só na tentativa do balbucio descontrolado.
Fantasmas sem pressa podiam aparecer compondo filas de uma procissão de almas contritas, velhas, leves e lúgubres que deslizavam sem tocar o chão e iam desaparecendo na medida em que mergulhavam na penumbra bem lá a diante. Na medida em que desapareciam os mais da frente, o grupo do meio era nítido e, surgindo do nada, iam aparecendo mais e mais indivíduos recompondo as fileiras, de tal forma que a procissão parecia nunca se findar.   - 
 Nem o nosso medo.   
Outra hora eram crianças leves como brumas que, sem mais nem menos apareciam ao lado da gente, quase nos matando de susto e queriam nos acompanhar agarradas em nossa mão. Vultos sombrios podiam surgir vindo em nossa direção ou simplesmente nos fazendo companhia por um certo trecho e de repente desaparecerem deixando como rastro uma névoa gelada e apavorante.
Até mesmo anjos com suas auras suaves surgiam quase imperceptíveis, denotados apenas pela paz que sentíamos quando se faziam presentes. Às vezes era  Nossa Senhora que vinha com seu manto imenso, sendo apenas percebida como uma presença alentadora.
Nossa Senhora geralmente vinha atendendo os clamores de criaturas frágeis, tementes, crentes e 
fervorosas. 
Talvez viesse pela nossa fé que nos momentos de perigo crescia muito. Pode ser também que o amor de mãe; ali todo mundo era filho de Nossa Senhora; a fizesse deixar o céu e se fazer presente nos acolhendo e protegendo com seu manto celestial e seu amor tão grandioso que conseguia ouvir um clamor balbuciado às pressas pelo ser que por mais insignificante e frágil que fosse, necessitava muito de proteção e amparo naquele momento.
Nunca se soube que alguém morresse ou enlouquecesse por causa dessas presenças ou desses medos. 
Era o mundo. 
Era a vida.
Quando um novo dia vinha, no abrigo das casas, as mentes clareavam e se contavam histórias sempre acrescentadas de mais seres, de temores, coragens e socorro do céu na última hora.
Houve um dia em que um menino percorreu aquelas ruas quando uma lua muito fraquinha caminhava pelo céu.  
Era alta noite. 
Os mesmos postes, a penumbra, os mesmos quintais. 
Percorreu andando absorto, distraído, sem prestar a atenção nos seres que o cercavam. Se orava, suas preces tinham outro sentido; seu pensamento se ocupava por inteiro de um semblante, um rosto, duas trancinhas jogadas uma sobre o ombro e com uma flor a enfeitá-la e a outra às costas balançando solta ao embalo do caminhar pueril e cheio de encantos dela. 
Num dos casarões, um vulto na janela tossia dando um derradeiro olhar à rua antes de se recolher e seguiu por uns momentos a imagem do menino.
Sendo um grande poeta, percebeu o que lhe, ia por dentro.
Encostou de leve a janela, tomou de um caderno e rabiscou um poema:

“Menino criança; seguindo na noite, envolto no frio e na solidão. 
Menino sem medo, que tão distraído anda na noite, 
do mesmo modo que segue na vida. 
Quase imbatível, ungido menino;
Aí vai você, movido por esperanças, amor e vida.”

O menino seguiu sem se dar conta do que inspirara.
Passou pela procissão de fantasmas sem quase os notar. Chegou a esboçar um gesto ligeiro saudando, mas seguiu imperturbável. Veio uma criança tomar sua mão e ele apenas notou leveza e alguma frialdade, continuou pensando na menina, achando o mundo emocionante, vendo a vida luminosa e plena de coisas boas. 
Logo adiante o pequeno fantasma desgarrou-se dele e o deixou ir no seu embevecimento.
Continuou assim ensimesmado até chegar em sua casa e empurrar cuidadosamente a porta semicerrada, por trás da qual uma cadeira se postava garantindo o fechamento. 
Sua mãe, ainda acordada; as mães não dormem sem que o último filho  chegue; abraçou-o beijando seus cabelos e adivinhando sua alma.
Pouco depois ambos dormiam despreocupados e seguros. 
Muitos outros casos se contam de pessoas que andavam na noite ébrios de amor, de embriaguez ou de preocupações e transitavam indiferentes entre os fantasmas saindo incólumes de suas jornadas.
No entanto os casos de sustos, de palidez fantasmagórica de pessoas que chegavam em suas casas contando as desventuras acontecidas pela imprudência de perambular pelas ruas noite a dentro ocorriam corriqueiramente.
Não que a cidade fosse assombrada.
Não é nada disso.
Tinha seus entes transcendentais como todo lugar tem. Ali até era bom porque reinava uma espécie de pacto entre os vivos e os já idos. Havia uma boa convivência, nos limites do quanto isso é possível. Assustar-se faz parte desses encontros, mas maldade não, nunca houve. Às vezes, um tropeção, alguns arranhões acidentais.
Ao que tudo indica, vivos e idos conviviam em harmonia sem se perturbarem. Podiam, inclusive, ocupar num mesmo momento o mesmo espaço.
Ao menos os vivos, só vislumbravam as almas em condições e momentos especiais: A madrugada, a pouca luz, o silêncio a condição mental do que caminha solitário na alta noite.
 Um conjunto de fatores propiciava flashes de percepções e até percepções mais duradouras.
Sempre que morria alguém, e ali todo mundo era muito conhecido de todas as pessoas; as aparições se exacerbavam.
 Um medo, como se fosse uma névoa pairava por muitos dias nas mentes das pessoas.
Alguém reveria o morto em algum momento da noite e seria portador de alguma última mensagem para alguém e, só depois disso aquela alma seguiria seu destino ao encontro de Deus ou de seu julgamento em algum lugar do nosso imaginário consubstanciado em nossa fé.
Fantasmas ocasionais não chegavam a nos preocupar, mas recém desencarnado inconformado, confuso, ansioso querendo falar com a gente, deixava as pessoas apreensivas e até temerosas.
Dizia-se que o suicida era o pior ente para se ter contato. O suicida era um desesperado, condenado ao sofrimento eterno, revoltado, arrependido e aos prantos ou raivoso e vociferando maldições. Causava apreensões e temor, ainda mais porque sabia-se que com certeza ele viria várias vezes falar com alguém clamando por preces, por perdão, explicando motivos, mandando um último recado e falando da grande penúria em que agora se encontrava.
Sempre tive pena de quem se suicidava. Tinha muito medo mas também entendia com meu entendimento de criança, o quanto de sofrimentos havia de ter levado alguém a se suicidar. 
Na época eram relativamente comuns histórias de suicídios.                                                          Romantizavam o suicídio. 
Toda casa tinha um veneno formicida chamado Formicida Tatu que, uma vez ingerido, não tinha volta. Matava cem por cento das pessoas que o tomasse.
Com a Formicida Tatu, não era possível externar um desespero com uma tentativa de suicídio.
 A tentativa nunca falhava.
 Uma moça mal falada já tinha motivo para se suicidar. Fosse por ter feito sexo com o namorado antes de casar, uma relação fortuita, ou qualquer outra variação nesse mesmo caminho. As pessoas desesperadas por causa de uma dívida, traição, levar um fora do namorado, perda de emprego, grandes prejuízos: tudo era motivo para o suicídio. 

06
Depois vinham as aparições no meio da noite para um sensitivo qualquer, inesperadamente no afã de se explicar ou falar sobre o arrependimento tardio.
Ao menos por umas duas ou três semanas, um certo medo pairava no ar.
Mais tarde proibiram a fabricação do formicida, amenizaram as pressões sociais, desmistificaram um pouco os modos de crer, adoçaram o sentido de honra e retiraram alguns pesos inúteis das costas das pessoas. Perdemos algumas nuances de felicidade mas ganhamos em liberdade, individualidade e clareza na nossa visão de vida.
Acho que hoje suicida-se menos.
Havia uma mocinha, nossa vizinha, não de muro, mas de cerca de arame, que era a criatura mais doce e humilde deste mundo. Simples, singela, bonita, discreta e trabalhadeira como ninguém.
Todo mundo queria ter uma filha assim, ou uma irmã, ou amiga.
Não fazia mal sequer a um inseto. Mas chegou na idade em que os hormônios acordam o corpo, enchem a mente de sonhos e ânsias, conferem atrativos tais que despertam no outro coisas semelhantes. O que é normal em toda a natureza, tinha na época que ser contido no ser humano, mais ainda na mulher. Quanto mais resguardado nela, mais buscado e incentivado nele.                                 Quanto mais modos e táticas de se resguardar, mais artimanhas e caminhos buscado pelo outro, também impelido pela mãe natureza.                       
E a ação da natureza se faz de todos os modos seja no cheiro do corpo,num jeito de olhar, no aroma das flores, na brisa fresca, na noite cálida, nas oportunidades surgidas, na mente que torna tudo fácil e possível, que ignora perigos.
Foi assim que, bem no alvorecer da vida ela foi encontrada com o namorado numa casinha do quintal no meio da madrugada.                               
O que era para ser uma cena linda e o início de uma vida caso se desse entre dois seres irracionais da natureza; transformou-se num imperdoável escândalo na família que encheu a pobre e doce criatura de vergonha insuportável.  acrescente-se aí o dedo hipócrita e acusatório da sociedade.                         Daí para o suicídio foi um passo.                             
A quase menina foi-se embora desse mundo e, acho que nem chegou nunca a aparecer para alguém. Se aparecesse seria na forma daquelas alminhas crianças que chegam nos tomando pela mão mas o faria tão gentilmente que não causaria susto nem frialdade em ninguém.  Hoje eu penso que foi direto para Deus, tão criança, boa e pura que era.
07
Depois veio o caso da pedinte que morreu esmigalhada pelo trem de ferro, todo mundo a conhecia, e o rapaz morto numa briga boba na praça principal, e um quase de minha idade que morreu ao cair de um caminhão. Todos queridos e conhecidos de todo mundo.
São muitos os casos como esses e muitos com outra roupagem mas bastava o sino dobrar na igreja noticiando alguma morte, logo se ficava sabendo que era algum conhecido, daí vinham lembranças e tão logo chegasse a noite, aquele soturno receio como se fosse uma sombra ficava pairando na cabeça da gente e nos alertando para a possibilidade de um aparecimento em qualquer momento de solidão na noite.                                      Vinham com avisos, conselhos, pedidos, recados, recomendações. Até os temidos acertos de contas eram possíveis .                                                         Não conseguíamos ficar em nosso normal diante da aparição. Ninguém gostava de viver a experiência. Por maior que fosse a coragem do vivente, ela se acabava logo.
A vida seguia nesse e no outro mundo. O tempo ia passando e o nosso mundo mudava. Os meninos ficavam moleques, os moleques se tornavam rapazes e muitos saiam para estudar fora enquanto a maioria se tornava mais sabida estudando nas escolas locais e lendo revistas em quadrinho.  Uma evolução, mesmo que lenta ia se processando. Mais tarde melhoraram a iluminação das ruas. Os fantasmas continuavam frequentando a noite, mas as pessoas foram lentamente deixando de prestar atenção neles. 
Mudaram-se muitos costumes, inclusive o de se contar histórias cheias de monstros e de aparições. 
O medo arrefeceu-se paulatinamente. 
Muita gente chegou no local, vinda de fora e tendo outras crenças, outras histórias para contar. Mas ainda hoje as gentes evitam passar pelo cemitério quando já é noite e, como a cidade quase não tem vida noturna, permanece o costume de todo mundo estar em casa antes das dez da noite e quem se atrasa por algum motivo, procura não andar só e leva sempre um patuá no pescoço ou um crucifixo pendurado para o caso de alguma surpresa. 
No mais, é deixar que os mundos existam e saber que a convivência é natural e eterna.
08
Somos todos filhos de Deus e o que não sabemos nem percebemos é muito mais do que temos testemunhado.
04/5/2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

Título do texto

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